sábado, 8 de fevereiro de 2014

Cartografia hamletiana, parte 1: Fim de Partida, de Samuel Beckett


“Um dia você ficará cego, como eu. Estará sentado num lugar qualquer, pequeno ponto perdido no nada, para sempre, no escuro, como eu. Um dia você dirá, estou cansado, vou me sentar, e sentará. Então, você dirá, tenho fome, vou me levantar e conseguir o que comer. Mas você não levantará. E você dirá, fiz mal em sentar, mas já que sentei, ficarei sentado mais um pouco, depois levanto e busco o que comer. Ficará um tempo olhando a parede, então você dirá, vou fechar os olhos, cochilar talvez, depois vou me sentir melhor, e você os fechará. E quando reabrir  os olhos, não haverá mais parede. Estará rodeado pelo vazio do infinito, nem todos os mortos de todos os tempos, ainda que ressuscitassem, o preencheriam, e então você será como um pedregulho perdido na estepe”.

Originalidade e solipsismo tardios representam a estranheza máxima de Hamm. Este sombrio protagonista de Fim de Partida, a peça de Samuel Beckett que mais emana diretamente a longa elipse deixada por Hamlet, de Willian Shakespeare, e que mais parece também querer completá-la de algum modo, talvez no lugar mesmo de onde a percepção do príncipe dinamarquês não tenha ido longe o suficiente, de qualquer modo, esse é o drama do silêncio e da amargura de Hamm.  Seu conflito está centrado na própria impossibilidade de ação, no ceticismo shoppenhauriano que remodela Hamlet para o século vinte, impedindo-o da ação derradeira.

Samuel Beckett nos dá um Hamlet que nada pode fazer a não ser reclamar do fato de que é tão anônimo quanto à natureza que existe _ e não existe_ lá fora, no espaço de uma minúscula janela, do alto de uma sala escura, onde Hamm contracena com Flog, seu Horácio transfigurado num periclitante lacaio, e seus pais, Nagg e Nell, ambos escondidos dentro de duas latas de lixo. Se o tema do despertar da consciência do príncipe Hamlet é a sombra maldita que percorre toda a peça, levando-o a falar constantemente sozinho e a agir de modo a praticar a morte de seu tio _ e por influência direta a de vários outros personagens niilistas que virão depois dele, como um Svidrigailov ou um Raskólnikov, para ficar apenas nos romances de Dostoiéviski, o filho mais monstruoso de Shakespeare_ a consciência previamente instaurada na peça de Beckett pode ser vista simbolicamente com o grande impasse da modernidade, livre da representação, mas entregue a solidão atróz da existência fragmentada e da ausência total de qualquer sentido, sendo assim, as duas obras se ligam ainda pelo fim de algo que ambas profetizam cada uma a seu modo.

A consciência irônica de Hamlet, quando totalmente desperta, se transforma numa imensa onda de violência e solidão absoluta, mas ainda uma consciência universal,porém, o Hamlet do fim da peça está extremamente envelhecido após o assassinato inútil de seu tio, ao passo que, em Fim de Partida, a consciência de Hamm vem acompanhada do vigor e da vontade de viver que deverá, obviamente, se auto- esfacelar no limiar mesmo do próprio ato, pois é o corpo envelhecido e cego de Hamlet que Hamm representa, e que também é uma visão muito particular de ver o problema do fracasso e da ausência de sentido. O grande fantasma do Pai só pode reviver nesse drama reencenado por Hamm, o último sucessor de uma longa fila de personagens que dão a entender que enlouquecem porque sabem demais, mas um saber inaudito,um silêncio que o mundo todo ignora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário