A
perspectiva na qual é abordada a teoria benjaminiana é certamente nova e
radical. No momento em que sua teoria parece ganhar contornos próprios,
Benjamin se esforça para não nos deixar esquecer que a tradução não deve buscar
a semelhança entre a obra original e seu análogo projeto de tradução, mas,
antes, não devemos nos desviar da senda que leva àquilo que ele chama de
parentesco das línguas. Em outras palavras, o que parece interessar mais ao
filósofo da escola de Frankfurt seria a essência universalizante de uma matriz lingüística,
uma língua pura de para onde todas as outras seriam sempre projetos inacabados,
rumo a ela derivariam todas as outras, a língua de partida e a língua de
chegada.
Para
Benjamin é necessário escapar à concepção instrumental da linguagem, não se
pode traduzir de forma mimética, também não se pode traduzir a essência do
texto original, isto se deve ao fato de ambos, a obra original e sua tradução
não corresponderem, separadamente, a nenhuma essência, de fato, é apenas
possível entender como essência o caráter inalterável, atemporal de um
determinado objeto cuja natureza íntima não poderia se perder com o tempo. Para
Benjamin, a verdadeira função da tradução residiria antes na sobrevida da obra,
as traduções de um texto seriam responsáveis por sua continuidade temporal, por
sua renovação histórica. De acordo com Benjamin, a tradução, longe da busca
objetiva pela correspondência de um texto original para outra língua, seria, ao
contrário, a ferramenta que impediria a cristalização histórica de uma obra nas
sucessivas recepções da obra através de suas traduções. Não sendo assim, a
tradução, e mesmo a obra de arte original cairia no perigo da ânsia totalizante
do pensamento sistemático, incapaz de “ler” um mundo que se fragmentou e cuja
temporalidade se tornou muito mais avassaladora. A maturação às quais estão
sujeitas as palavras fugiram de qualquer controle centralizante. Não há
essência, de acordo com Benjamin, porque a obra original se transforma, ela
depende sempre de sua sobrevida, que por sua vez é pura vertigem. Traduzir só é
possível considerando a sobrevida. A velha tradução mimética, além de arcaica e
obsoleta, também não é a equação desejada entre duas línguas impuras, e o
processo evolutivo de uma língua depende sempre de uma outra. Considerando
estes fatores, pensa Benjamin, a tradução se torna eficaz. Quando é capaz de
ligar a maturação de uma língua estrangeira à sua própria, torna possível a
adequação da palavra nova em uma língua de partida. A ênfase do filósofo alemão
certamente não recai no potencial tradutório do conteúdo, dos sentidos
imanentes de uma obra, mas ao contrário, ambas seriam fragmentos de uma língua
original.
No
dizer de Benjamin é possível encontrarmos um parentesco entre duas línguas que
justifique a tradução de palavras, de frases, de obras inteiras, porque ambas
são sempre construtos inacabados, incapazes de dizer aquilo que deveriam dizer.
No entanto, a união de ambas sinalizaria por uma terceira via, a
complementaridade, a totalidade, no dizer de Benjamin a “língua pura”.
Toda
tradução, como toda obra, é sempre provisória. A arte é durável, mas ao mesmo
tempo não se pode dizer da tradução, que é sempre vulnerável à mudanças, à
passagem do tempo, à obra definitiva. Por outro lado, se uma obra pode
sobreviver, sua sobrevida dependerá sempre de processo tradutório “ad infinitum”. Para Benjamin, arte e conteúdo interagem para
o bem de ambas, pois, do mesmo modo que a obra original é sempre mais elevada
que o resultado provisório da tradução, por outro lado, paradoxalmente, a
permanência da obra depende intrinsecamente de sua tradução.
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