sábado, 1 de fevereiro de 2014

a tarefa do tradutor sob a perspectiva de Walter Benjamin



A perspectiva na qual é abordada a teoria benjaminiana é certamente nova e radical. No momento em que sua teoria parece ganhar contornos próprios, Benjamin se esforça para não nos deixar esquecer que a tradução não deve buscar a semelhança entre a obra original e seu análogo projeto de tradução, mas, antes, não devemos nos desviar da senda que leva àquilo que ele chama de parentesco das línguas. Em outras palavras, o que parece interessar mais ao filósofo da escola de Frankfurt seria a essência universalizante de uma matriz lingüística, uma língua pura de para onde todas as outras seriam sempre projetos inacabados, rumo a ela derivariam todas as outras, a língua de partida e a língua de chegada.

Para Benjamin é necessário escapar à concepção instrumental da linguagem, não se pode traduzir de forma mimética, também não se pode traduzir a essência do texto original, isto se deve ao fato de ambos, a obra original e sua tradução não corresponderem, separadamente, a nenhuma essência, de fato, é apenas possível entender como essência o caráter inalterável, atemporal de um determinado objeto cuja natureza íntima não poderia se perder com o tempo. Para Benjamin, a verdadeira função da tradução residiria antes na sobrevida da obra, as traduções de um texto seriam responsáveis por sua continuidade temporal, por sua renovação histórica. De acordo com Benjamin, a tradução, longe da busca objetiva pela correspondência de um texto original para outra língua, seria, ao contrário, a ferramenta que impediria a cristalização histórica de uma obra nas sucessivas recepções da obra através de suas traduções. Não sendo assim, a tradução, e mesmo a obra de arte original cairia no perigo da ânsia totalizante do pensamento sistemático, incapaz de “ler” um mundo que se fragmentou e cuja temporalidade se tornou muito mais avassaladora. A maturação às quais estão sujeitas as palavras fugiram de qualquer controle centralizante. Não há essência, de acordo com Benjamin, porque a obra original se transforma, ela depende sempre de sua sobrevida, que por sua vez é pura vertigem. Traduzir só é possível considerando a sobrevida. A velha tradução mimética, além de arcaica e obsoleta, também não é a equação desejada entre duas línguas impuras, e o processo evolutivo de uma língua depende sempre de uma outra. Considerando estes fatores, pensa Benjamin, a tradução se torna eficaz. Quando é capaz de ligar a maturação de uma língua estrangeira à sua própria, torna possível a adequação da palavra nova em uma língua de partida. A ênfase do filósofo alemão certamente não recai no potencial tradutório do conteúdo, dos sentidos imanentes de uma obra, mas ao contrário, ambas seriam fragmentos de uma língua original.

No dizer de Benjamin é possível encontrarmos um parentesco entre duas línguas que justifique a tradução de palavras, de frases, de obras inteiras, porque ambas são sempre construtos inacabados, incapazes de dizer aquilo que deveriam dizer. No entanto, a união de ambas sinalizaria por uma terceira via, a complementaridade, a totalidade, no dizer de Benjamin a “língua pura”.

Toda tradução, como toda obra, é sempre provisória. A arte é durável, mas ao mesmo tempo não se pode dizer da tradução, que é sempre vulnerável à mudanças, à passagem do tempo, à obra definitiva. Por outro lado, se uma obra pode sobreviver, sua sobrevida dependerá sempre de processo tradutório “ad infinitum”.  Para Benjamin, arte e conteúdo interagem para o bem de ambas, pois, do mesmo modo que a obra original é sempre mais elevada que o resultado provisório da tradução, por outro lado, paradoxalmente, a permanência da obra depende intrinsecamente de sua tradução.

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