No
romance Fogo Morto, a noite é a
máquina fonte, a partir dela é que o mestre José Amaro responde com seus fluxos
de máquina-órgão, percorrendo uma cartografia antes invisível, repleto de
Fluxos e phylum maquínicos, pontos de
fuga para as noites de lua cheia. O passeio do esquizofrênico colonizado é o
oposto do neurótico freudiano-urbano-europeu, esperando que o dia nasça para
que ele possa, enfim, correr para o divã. Assim como o horror físico é noturno,
o passeio esquizofrênico também o é. As noites ao ar livre do mestre José Amaro
o ligam a complexos cipoais de acoplamentos com outras máquinas, tudo muito
diferente da claustrofobia de sua tapera, subsumindo as figuras turvas de sua
filha e sua mulher, ela, uma pastorinha-mãe-mulher, que o força a situar-se
socialmente, a outra, uma filha cujo assujeitamento ele não ignora, pois é a
outra face de seu próprio horror, é a parte dele que se perde em volúpias e
angústias jamais realizadas. Para Félix Guattari:
Optei por um
inconsciente que superpõe múltiplos estratos de subjetivações, estratos
heterogêneos, de extensão e de consistência maiores ou menores. Inconsciente,
então, mais “esquizo”, liberado dos grilhões familiaristas, mais voltados para
a práxis atuais do que para fixações e regressões em relação ao passado.
Inconsciente de Fluxo e de máquinas abstratas, mais do inconsciente de
estrutura e de linguagem. (GUATTARI, 2012, p. 23)
Caminhando
descalço à noite, ao contrário, ele está percorrendo os canaviais, sob um luar
intenso, quem pode imaginar a imensidão de deuses esquecidos que caminham com
ele; sem família, porém, com a natureza, uma natureza que funciona como uma
imensidão de máquinas que se acoplam com as de seu corpo. Seu corpo pode
finalmente exalar clorofila abundante, não a podridão que esse mesmo corpo
exala enquanto trabalha martelando sem parar solas de sapato durante o dia.
Relações de fotossíntese que ele se lembrará, mas tarde, em sua rede, com o
corpo exausto. Acreditamos que Mestre José Amaro é um personagem que vive a
natureza como natureza, nada os diferencia, não há dualidade homem-natureza, o
que ele sabe _ e talvez seja seu único saber verdadeiro _ é que deve fugir em
noites de lua cheia, acoplar sua máquina às outras máquinas, tão produtoras e
desejantes como as dele, em suma, como tentamos defender aqui, as máquinas
esquizofrênicas de Deleuze-Guattari de fato atuam em romances como Fogo Morto,
sem exterior ou interior. Este ponto está bem expresso na seguinte passagem:
... E como se tivesse
tirado um peso de chumbo dos ombros o mestre José Amaro saiu para ver a noite,
para sentir-se só na noite que era de lua cheia. A estrada branqueada pelo luar
cheirava a cajá maduro. As moitas de cabreiras tinham ramas de algodão pelos
galhos espinhentos. (...) Ali ele se sentia numa intimidade fácil com as
coisas. (...) Viu os partidos de cana gemendo na ventania, o mar de cana madura
com os pendões floridos. (LINS DO RÊGO, 2008, p. 147)
Quanto
à mulher e a filha de José Amaro, o que tentaremos analisar é o processo de
assujeitamento que as práticas de biopoderes as submetem a rigorosas formas de
conduta e de silencio. São personagens
entregues à sujeição, como dirá Foucault em sua análise das práticas de
biopoder, tais processos de subjetivação são responsáveis por agenciamentos
corporais de dominação dos corpos e fazem deles parte obrigatoriamente
produtiva da cadeia de trabalho, com exceção da filha, incapacitada de exercer
seu papel na cadeia de trabalho feminino, ou seja, de casar e de procriar, o
que a leva ao tipo de demência que é o contrário do saber da desrazão do mestre
José Amaro ou do coronel Vitorino. O que naufraga junto com a filha do mestre
José Amaro, é a própria debilidade da sociedade excludente que o condena,
pode-se dizer que o que a submete à demência são as práticas de subjetivação dos
indivíduos da superfície, os sãos. Trata-se de um ato de revolta contra a
razão, a febre do de-fora é o último ato desmedido contra todas as formas de
controle disciplinares de si.
... A desvalorização
do sentido da vida provoca o esfacelamento da imagem do eu: suas representações
tornam-se confusas, contraditórias. Face a essas convulsões, a melhor atitude
consiste em visar ao trabalho de
cartografia e de modelização psicológica em uma relação dialética com os
interessados, os indivíduos e os grupos concernidos, quer dizer, indo no
sentido de uma cogestão da produção de subjetividade... Guattari, p.22
O conjunto desses pensamentos, a
nosso ver, está arquitetado na noção de transgressão. Juntos, a desleitura do
binômio Marx - Freud, confirmam os estragos causados neste último século, de
pulsão, angústia, mass-media, elementos que não são apenas substituídos, mas,
sobretudo, superados por conceitos como máquinas desejantes de subjetivação, rizoma,
fluxos esquizo, enfim, uma nova forma de conceber o problema da vida em
dimensões que ultrapassam o linguístico e os valores semióticos.
Há
certos tipos de condicionamento repressivo das maquinárias desejantes que
perfazem o fluxo de loucura que são reprimidos pela esquizofrenia capitalista,
nesses loucos, a loucura se esgota em si mesma sem que seja alcançada a
potência criadora que apenas o gênio da desrazão é capaz de atingir. Isto
acontece nas mais diferentes condições rizomáticas, como a máquina-literatura,
a máquina-livro ou outras inúmeras formas de funcionamento da maquinaria
desejante. No louco, quando o fluxo é cortado, é toda a cartografia genial e
emotiva que se esgota antes que alcance seu ápice.
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