TEXTO 1
As
palavras de Blanchot sempre ecoaram em tudo o que eu já disse impunemente sobre
literatura, mesmo quando ainda nem sabia o que era essa coisa que
anacronicamente denominamos literatura, muito menos antes de ler Maurice
Blanchot. O recôndito sótão do pensamento sempre quer voltar ao tempo em que
qualquer definição não é apenas arbitrária, mas um disparate total, e hoje,
quando o que penso em nada parece lembrar o tema literatura sei que estou
pensando em literatura porque é uma maneira de tentar voltar ao tempo em que
não havia necessidade de diferenciar uma coisa de outra, e também porque, é um
modo especialmente literário o desejo
de retornar àquele instantezinho perdido no passado onde o nomear é que é o
insólito.
Aquele
que lê um texto literário se vê imerso na solidão da linguagem mais pura, na
solidão do poema, do conto, do romance e do ensaio sem que isso o desagrade, ao
contrário, o leitor, quando entregue a tarefa de unir sua alma a alma do texto,
instaura-se na solidão e no vazio essencial, e há um vazio que é essencial para
todos nós, é o espaço do sonhar acordado, o espaço de onde tudo reverbera, de
onde todos se vêem de dentro para fora, eternamente agradecidos pelo fato de
que estão todos, essa legião de leitores anônimos, enfim, entregues ao vazio da
obra, ao vazio que nada diz além daquilo que se apresenta como imagem fugaz e
feliz de um instante de criação entre leitor e texto, é a tal felicidade
clandestina de Clarice Lispector, tão passageira que nos dá sempre vontade de
dizer algo, porém, sabendo de antemão que já está tudo perdido a partir do
instante mesmo em que se diz algo, isto acontece porque já se calou a própria
imagem feliz, deve o leitor então também calar.
O
que há de autêntico nesta experiência se conjuga na dupla negação que é o fato
de que a palavra escrita, como queria Jacques Derrida, não é submissa ao ato da
transcendência humana, essa forma sempre última de escravidão em direção ao
nada, não é também a pletora _ mais uma vez submissa_ da fala, mas antes, o
início e o fim de seu próprio ato cego.
Ainda seguindo o
raciocínio de Derrida, podemos voltar os olhos para a obra e enxergar nela a
recusa do centro, a obra é feita de uma essência sem retorno e sem fim, se ela
às vezes parece que convergirá rumo a um centro harmonioso, é justamente para
logo em seguida negar a fixidez desse centro, que na verdade é sempre cambiante,
pois se move à medida que leitor e autor se aproximam dele. Porém, para que se
perceba que o centro é menos um ponto de chegada e mais propriamente uma
multiplicidade de pontos desconexos, é que se deve ter em mente que, para se
ler uma obra literária, de Ariosto à Clarisse Lispector, a melhor e
provavelmente a única opção que o leitor sensível dispõe é de buscar sempre a
contradição de uma fala que é destinada ao próprio aniquilamento, ler e
escrever literatura é como queria Bataille, um ato de morte. Deste modo, o
leitor desmascara não só as ideias aporéticas que a cultura ocidental se
acostumou a chamar de verdade e centro, e que são efetivamente construções
políticas e destinadas a dominação irrestrita, mas também, e, sobretudo, o
desmascaramento de nossos falsos sistemas pessoais de crença, ao qual nos
apegamos sem questionar porque nos parece, de todo modo, a expressão única de
nossos pensamentos, enfim, a voz de nossa própria consciência, ou ainda pior, a
voz intermitente da ideologia, que também parece que nos presidir.
Mas ambas as noções são
refratárias, ambas estão equivocadas porque ambas ignoram que não há uma raiz,
como assevera Gilles Deleuze, a raiz, o binômio fascicular proveniente da raiz
não condizem com o nada de onde surge o rizoma, que não termina em lugar nenhum
nem tem início em lugar algum.
O artista é a
testemunha esquizofrênica do silencio que ele mesmo cria entre ele e o mundo. O
ato de escrever é a única forma de lhe conferir a existência, é onde um Kafka
pode se regozijar de não mais ser um “eu” que fala para um “tu” ou um “vós”,
mas antes, o vazio, encontrar a linguagem é encontrar o vazio, a escrita da
linguagem poética é um nada transbordante. Quando o poeta se depara com essa
estranha indiferença de si mesmo, ou seja, sua obra, o que lhe causa fascínio é
o ato mórbido de voltar-se contra si mesmo, não podendo e perversamente não
desejando nunca encerrar sua obra, o que lhe resta é esta tarefa de Sísifo, ato
incessante de recomeçar o que nunca teve fim.
O anulamento
concomitante daquele que se propõe a escrever termina com a indefensável
distância que lhe restou do ato de escrever para a morte, que é a tarefa de
recolher tudo o que resta, como o Satanás de Milton, esse poeta agônico, como
ele, todo poeta autêntico se fia nesse prazer indizível, nesse último ato de
vingança contra o mundo que lhe facultou o silencio, e ele usufrui a distancia
do mundo sem ressentimento, movido apenas pelos agenciamentos maquínicos do
desejo.
TEXTO
2
Nossa alegria perante o
cipoal de máquinas desejantes, quando nossos pés descalços tocam a umidade do
chão frio e coberto por folhas secas, nosso arrebatamento perante a imagem
holográfica de Walt Whitman nos confidenciando o rizoma de cada som, de cada
ruído perpetrado ao infinito por linhas horizontais de todas as máquinas
desejantes que antes não diferenciávamos, pois eram tão somente órgãos,
máquinas-livros, e que era, na verdade, Whitman-máquina, tudo convergindo para
a multiplicidade do passeio no bosque da ficção.
TEXTO
3
O limiar é o espaço de
onde se pode avistar e delinear os contornos dos signos que não conduzem ou não
progride na direção esperada. Se o significante cambiante não se aclimata ao
calor ou ao frio, é porque o sentido de frio e calor nunca foi capaz de dizer
tudo, a experiência nunca pode senão calar diante do signo que, sob sua tutela,
sob o imperativo do ter de dizer o objeto, nada nunca se nos disse além do do
próprio vazio do ter já de dizer algo.
TEXTO
4
Nossa satisfação diante
de um sistema semiótico, nossa empatia em presença de uma possibilidade de
construção de sentidos, em que a organização espiritual do mundo se mostra num
conjunto ora deficiente ora caótico, sempre dependem, iminentemente, do modo
como se constrói a possibilidade de organizar os sentidos, nesse esforço de
Sísifo, não se pode retroceder, embora ir adiante seja uma tarefa temerária.
TEXTO
5
Vitória de Apolo sobre
Dioniso; aprisionamento da mulher pelo homem; aprisionamento da deusa lua sob a
tutela do deus sol; aton-ricardo-sol e rachel – diana – lua; verde= cor da
morte; mito do fim do matriarcado; beleza, verde, meio-termo; rachel, bíblia,
olhos verdes; labirinto, espaço de exclusão; Gilbert durand, regime diurno e
regime noturno.
TEXTO
6
O signo funciona em excesso,
desacredita-se ao se deixar tocar em demasia. A linguagem transborda ao mesmo
tempo em que a ideia, que se avulta sobre a sombra _ inexistente _ do ser e
deixa para trás tudo aquilo que era a própria ideia.
TEXTO
7
Leitura
rasa dos espíritos culpados. O sentido das palavras que
se manifestam quase tão tranquilas e rápidas como o pensamento, são as
configurações tranquilas e rápidas daquilo que, em se manifestando, pouco ou
mais se lhe dá como ganho individual, sendo a linguagem tranquila e rápida, é
contraditoriamente repouso sobre o objeto que também está parado, a inércia é a
do signo e não do objeto, e esse equívoco fundamental nos convida a destruir
tudo o que há no limiar de ambos.
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