sábado, 1 de fevereiro de 2014

A máscara como símbolo do artista em Thomas Mann


 

 

Minha intenção aqui não é de tentar esgostar o tema que me proponho discutir, a saber, a visão extremamente peculiar e original de Thomas Mann sobre o problema da verdade da arte e da real condição do artista. A parte o fato de que se trata de uma tarefa impossível, pois cremos que a obra de arte literária comporta uma multiplicidade muito grande de possibilidades de leitura.

 Lendo Thomas Mann, parece-nos difícil ignorar o fato de que seus personagens representam as próprias idéias e concepções filosóficas de seu autor, que, como já vimos, tentou se distanciar o quanto pôde da figura titânica de seu Pai Poético, Goethe. O que desejamos defender em nossa pesquisa é que Mann, abraçando a teoria nietzschiana da inversão platônica de todos os valores morais, espirituais e artísticos, tão amplamente professados na arte do poeta precursor e no próprio movimento artístico anterior, buscou subverter em suas obras o que antes era tido sintetizado como a verdadeira essência, ou seja, o fato de que a existência do mundo sensível não é outra coisa que uma cópia imperfeita do mundo supra-sensível.

Com efeito, são personagens como Adrian Leverkhun e Gustav Von Aschenbach, dotados de incrível estranheza que parece repousar muito além do fato de que suas existências protagonizaram acontecimentos tão próximos de seu país e de seu autor e de sua época, e, que, por mais paradoxal que possa parecer, _ e, de fato o é, _ encontramos uma concepção filosófica por trás de cada de um desses “persongens-idéias”, onde reina a figura do artista que subitamente se vê obrigado a representar a decadência fisiológica e espiritual de todos os valores burgueses rumo ao crescente e ameaçador despertar do riso, do exagero e do erotismo, com um sensível e recém-descoberto entreouvir-se a si mesmo.

A figura do artista é constantemente acompanhada de seu daimon interior. O que está em evidencia em “Morte em Veneza” e em tantas outras obras de Mann é a discussão sobre o lugar do artista numa sociedade burguesa, esse verdadeiro “Cain”, o poeta tardio que não pode representar verdadeiramente o seu grupo social sem cair em aporia com a essência de sua própria perquirição sobre a verdadeira natureza da arte.

Para o artista representante da esfera burguesa da Alemanha do final do século dezenove o que o inquietava era a posição incômoda que o artista ocupava no seio dessa sociedade. Talvez incomodasse mais ainda a Thomas Mann seu próprio caráter antitético no seio de uma sociedade ambivalente em relação ao papel da arte. No contexto ideológico da Alemanha burguesa o não seria menos um representante dos ideais sociais e morais cristalinamente espelhados nas melhores virtudes de seu povo do que a figura do artista como um falsário, um enganador, um imoral, um ator, como bem definiu Nietzsche em “Vontade de Potência” (p.126), “Problema do ator: A insinceridade, a típica força de transformação como falta de caráter ... a falta de vergonha... o sátiro, o bufão, o Gil Blas, a ator que desempenha o papel de artista”.

Malgrado o fato de que o artista seja alguém que em nada pode contribuir para o progresso material de uma sociedade baseada no comércio como fundamento de sua própria existência, a artista não pode se entregar ao pensamento que vê na moral burguesa e na força do trabalho os verdadeiros pilares de uma sociedade baseada na evolução positivista de verdade.

 

 

 

 

 

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