Minha intenção aqui não é de tentar esgostar o tema que me proponho discutir, a saber, a
visão extremamente peculiar e original de Thomas Mann sobre o problema da
verdade da arte e da real condição do artista. A parte o fato de que se trata
de uma tarefa impossível, pois cremos que a obra de arte literária comporta uma
multiplicidade muito grande de possibilidades de leitura.
Lendo Thomas Mann, parece-nos difícil ignorar
o fato de que seus personagens representam as próprias idéias e concepções
filosóficas de seu autor, que, como já vimos, tentou se distanciar o quanto
pôde da figura titânica de seu Pai Poético, Goethe. O que desejamos defender em
nossa pesquisa é que Mann, abraçando a teoria nietzschiana da inversão
platônica de todos os valores morais, espirituais e artísticos, tão amplamente
professados na arte do poeta precursor e no próprio movimento artístico
anterior, buscou subverter em suas obras o que antes era tido sintetizado como
a verdadeira essência, ou seja, o fato de que a existência do mundo sensível
não é outra coisa que uma cópia imperfeita do mundo supra-sensível.
Com efeito, são personagens
como Adrian Leverkhun e Gustav Von Aschenbach, dotados de incrível estranheza
que parece repousar muito além do fato de que suas existências protagonizaram
acontecimentos tão próximos de seu país e de seu autor e de sua época, e, que,
por mais paradoxal que possa parecer, _ e, de fato o é, _ encontramos uma
concepção filosófica por trás de cada de um desses “persongens-idéias”, onde
reina a figura do artista que subitamente se vê obrigado a representar a
decadência fisiológica e espiritual de todos os valores burgueses rumo ao
crescente e ameaçador despertar do riso, do exagero e do erotismo, com um
sensível e recém-descoberto entreouvir-se a si mesmo.
A figura do artista é
constantemente acompanhada de seu daimon
interior. O que está em evidencia em “Morte em Veneza” e em tantas outras obras
de Mann é a discussão sobre o lugar do artista numa sociedade burguesa, esse
verdadeiro “Cain”, o poeta tardio que não pode representar verdadeiramente o
seu grupo social sem cair em aporia com a essência de sua própria perquirição
sobre a verdadeira natureza da arte.
Para o artista representante
da esfera burguesa da Alemanha do final do século dezenove o que o inquietava
era a posição incômoda que o artista ocupava no seio dessa sociedade. Talvez
incomodasse mais ainda a Thomas Mann seu próprio caráter antitético no seio de
uma sociedade ambivalente em relação ao papel da arte. No contexto ideológico
da Alemanha burguesa o não seria menos um representante dos ideais sociais e
morais cristalinamente espelhados nas melhores virtudes de seu povo do que a
figura do artista como um falsário, um enganador, um imoral, um ator, como bem
definiu Nietzsche em “Vontade de Potência” (p.126), “Problema do ator: A
insinceridade, a típica força de transformação como falta de caráter ... a falta de vergonha... o sátiro, o bufão,
o Gil Blas, a ator que desempenha o papel de artista”.
Malgrado o fato de que o
artista seja alguém que em nada pode contribuir para o progresso material de
uma sociedade baseada no comércio como fundamento de sua própria existência, a
artista não pode se entregar ao pensamento que vê na moral burguesa e na força
do trabalho os verdadeiros pilares de uma sociedade baseada na evolução
positivista de verdade.
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