Não seria
demasiado fantasioso ou dramático afirmar que os quadrinhos estão caminhando
para um rápido processo de extinção? Acredito que a resposta só pode ser não,
não absolutamente. Há que se considerar alguns fatores que, mesmo parecendo excludentes
quando colocados de forma simplista e desconexa, ou que não contribuem muito
fora do contexto amplo que a questão exige, mas que, reunidos sob um mesmo
prisma, torna-se bastante útil na análise geral do problema. Falo da
sobrevivência dos quadrinhos como indústria, e é claro, falo ainda, e de forma
mais preocupada, de como faremos, nós, talvez os últimos dos autores de
quadrinhos, para mantermos esse gênero como uma forma de arte honesta e
original, seja qual for o tempo que ainda dure como tal. É o que, convenhamos, torna a problemática ainda mais delicada e
que, portanto, merece ser focalizada de uma forma mais detalhada e atenta. Se
ainda não desistiram de ler esse ensaio, penso que concordam comigo.
Há algum tempo, por volta do início da minha
adolescência _ hoje tenho quase 33 anos _ os quadrinhos perderam seu posto de
leitura para crianças. Isto teve um lado positivo e outro negativo _ como tudo
na vida, ao que parece. O lado positivo a que me refiro é evidente a qualquer
leitor do gênero, a saber, o fato de que a partir dos anos oitenta, as
histórias – em – quadrinhos perderam de vez a antiga aura ingênua a qual ficou
quase indelevelmente anteriormente atrelada desde seu surgimento. Mas as coisas
mudaram drasticamente na segunda metade dos anos oitenta do século passado,
surgia uma nova geração de talentosos autores, como Neil Gaiman, Alan Moore e
Frank Miller, para ficar entre os mais conhecidos e suas propostas não erma
menos que arrasadoras para o mercado. Percebeu-se, quiçá pela primeira vez na
história desta indústria, que o gênero carecia realmente de renovação, as
possibilidades que os quadrinhos permitiam haviam ainda permanecido quase
intocadas ou mal exploradas, era irremediável a busca por novos rumos e valores.
Não seria exagero dizer que tais autores, jovens e donos de um real talento
ainda não vistos no gênero se voltaram para os quadrinhos como um último
“Eldorado”, sabiam qual era o erro cometido até ali e pretendiam _ e imagino
com bastante consciência do fato _ de que continuar no erro, que amiúde afetava
desde toda a parte criativa do processo indo chegar até mesmo nos leitores,
seria um suicídio descabido. Quase todos atrofiados pelo longo tempo de
inércia, a maioria dos antigos quadrinhistas _ a maioria talentosos, por sinal
_ não se sentiam capazes ou não desejam que o status quo dos quadrinhos sofresse qualquer tipo de alteração. Para
muitos dentro do meio, os “comics” eram apenas um produto de distração para
leitores semi-analfabetos ou crianças em fase de escolarização e, portanto, de
escasso valor estético. Claro, isso era realmente desalentador. Mas esses novos
valores buscavam também atingir o leitor maduro, intelectualizado, aquele que
não lia quadrinhos ou os havia abandonado, e este fator foi preponderante para
aproximar os quadrinhos das outras artes, especialmente às artes plásticas e a
literatura, suas parentes mais próximas, suponho. Pela primeira vez em sua
história, as personagens de quadrinhos deixavam de ser meras caricaturas e que
antes não passavam de personagens planos assumiam características muito mais
próximas do tratamento dado à sofisticadíssima caracterização de personagens na
literatura. Desse modo, as personagens agora se aproximavam sobremaneira de
seus leitores; a arte das ilustrações, por sua vez, nunca fora tão explorada a
um ponto tão extremo e o gênero, como disse antes, não tardou a alcançar o
patamar de leitura adulta, merecidamente, aliás. Mas, nem tudo correu como
planejado, com a temática e olhos voltados para o publico maduro, a antiga
ingenuidade dos quadrinhos, e que tanto cativaram crianças e adolescentes de
outras gerações agora, estranhamente, parecia perder-se no caminho, com isso,
as histórias – em – quadrinhos, melancolicamente, se tornaram leitura apenas de
adultos, até mesmo as revistas de super-heróis se distanciaram da antiga
ingenuidade, lembro, incrédulo, a primeira vez que li a maravilhosa “Orquídea
Negra”, de Neil Gaiman e Dave Mckean, onde um vilão, sem roupa colante, e sim
de terno e gravata, prometia a heroína não amarrá-la e deixá-la para morrer
trancada em algum esconderijo no sub-solo, porque ele sabia como aquilo
terminava no passado, ele sabia que ela escaparia e sabia porque este era o
expediente comum destas histórias. Por isso a minha surpresa quando vi a arma
apontada pra sua cabeça enquanto no painel seguinte, os miolos estourados
criavam um efeito belíssimo de cores, e bem no início da história. É nesse
ponto, que imagino residir o ponto nevrálgico da falência dos quadrinhos como
indústria. Hoje em dia não se vêem mais adolescentes infernizando a vida de
simpáticos ou antipáticos jornaleiros enquanto esperam a chegada do próximo
“Superaventuras Marvel”, a molecada não lê mais quadrinhos, e isso significa,
partindo de uma linha de pensamento bastante evidente por si mesma, que
cometeu-se um erro nesse caso, um equívoco mal avaliado alguns anos atrás , mas
que vem a tona nesse momento. Agora que temos na noção do problema, creio que
prudente indicar então, as linhas tortuosas no futuro negro dos quadrinhos e
que amiúde, se mostram bastante variadas. Acredito que o meu caso pode ser
exemplar como forma de ilustrar a questão. Lembro que, duas décadas
atrás,quando ainda vivia numa minúscula cidade do interior de Goiás, cujas poucos
atrativos para uma criança com um gosto imenso pela vagabundagem consistiam em
jogar futebol na rua _ que eram quase todas de terra e que por isto, facilitava
sobremaneira nosso esporte _ e nadar nos córregos que cortavam a cidade em
todas as direções, brigar com os outros moleques, escalar penhascos, serras,
sonhar durante horas com a “menina ruiva” e etc., Nesse universo bastante
reduzido, minha mãe sempre se preocupou com a formação de seus dois filhos, eu,
claramente o mais introspectivo e sonhador deles, só precisava de um pequeno, mas,
fundamental empurrãozinho rumo ao mundo secreto da palavra escrita e, assim,
ser totalmente e definitivamente inoculado pelo bichinho da leitura. E isto já
havia acontecido antes, antes de conhecer os quadrinhos, havia lido
obcecadamente um exemplar de “A Divina Comédia”, de Dante, li a obra durante
anos sem entender muito, mas me divertindo como um louco, principalmente com as
cenas de torturas no Inferno. Lembro-me que na época, fiquei tão seduzido por
essa leitura que não tardei a desenhar os círculos do Inferno, o Monte
Purgatório, comecei a desenhar minhas professoras sendo torturadas no lugar dos
inimigos de Dante, hehehehe, infelizmente não consegui guardar nenhum desses
desenhos, mas não sei o por que, depois disso passei longos anos distante da
Literatura. Minha primeira paixão viria, no entanto, logo em seguida, e o mundo
dos quadrinhos me fisgaria de forma arrebatadora. Aconteceu quando, após sua
primeira semana de aula como estudante de direito, minha mãe presenteou-me com
as edições número 12 e 21, da revista dos “Superamigos” e “Super-Homem”,
respectivamente. Pronto, estava inoculado e obcecado, não apenas por
quadrinhos, mas por todo o universo da leitura, e o que é melhor, para todo o
sempre amém. Mas, voltemos à questão principal porque dela não devemos nos
distanciar muito. O que tem acontecido ultimamente, por que as crianças não
lêem mais quadrinhos? Por que, afinal, não encontramos mais garotos ávidos pela
chegada da próxima edição do Homem-aranha? Creio que está neste ponto crucial o
verdadeiro caminho para se tentar responder a questão da falência dos
quadrinhos como indústria de entretenimento de massa. Não estamos mais formando
novas gerações de leitores de quadrinhos, talvez a minha geração, na casa dos
trinta anos seja a ultimares, é bem provável que isto venha a acontecer. A pergunta
que gostaria de ver respondida até o final deste ensaio é, basicamente: por que
negligenciamos a formação das crianças como leitoras? Se eu estiver certo, e
creio que esteja, como faremos para reverter este quadro? Haverá tempo pra
isto? Possivelmente não, as crianças não querem mais saber de quadrinhos, a
Internet exerce, a meu ver, um fascínio muito maior que paginas coloridas com
textos em volta Elas
não precisam mais desse tipo de coisa, quadrinhistas pertencerão em breve, a
coisa do passado, uma profissão do passado.
Nós, logo seremos então apenas passado. A minha tendência latina é de ser
sempre muito pessimista e melodramático, mas talvez neste caso, não esteja tão
distante da verdade. Mas também, creio que não precisava ter sido assim,
podíamos ter tido mais cuidado com o papel das histórias – em quadrinhos na
formação de leitores, afinal, esse gênero serviu muito bem a vários leitores
célebres do século vinte, nem é preciso mencionar nomes, sabemos a relevância dos
quadrinhos no século vinte. Os quadrinhos, como forma de arte, nasceram e
provavelmente vai morrer em pouco mais de cem anos, e isto é cruel, mas o que
se há de fazer?
Outra óbvia ameaça à indústria são os
popularíssimos “downloads”. Não há como negar, os quadrinhos estão migrando
rapidamente para o universo da Internet. As novas gerações já sentem que não é
necessário pagar por coisas como musicas, filmes e é claro, quadrinhos. É
preciso pensar no tema com bastante cautela, afinal, trata-se de um caminho
também inexplorado.
Do ponto de vista estético, ou seja, vendo as
histórias – em – quadrinhos mais como uma forma de expressão artística, creio
que os quadrinhos não estão ameaçados. Ao contrário, acredito que, enfim livre
do consumo em massa, talvez só restem os artistas que estão realmente
interessados em criar a partir de uma mentalidade bastante diferente do que se
vê hoje. Longe de palavras de ordem como “mercado”, “distribuição”, etc.,
teremos finalmente o espaço que precisamos para uma verdadeira transformação
que o gênero ainda não conheceu. Teremos então, não apenas um campo fértil e
propicio para todo tipo de experiências estritamente artísticas e verdadeiras.
A minha sugestão, como um balanço geral, é que
continuemos tentando produzir um material adulto e de qualidade cada vez
melhor, mesmo que não dê em nada no final, isto me faz pensar nas aulas de
flauta que Sócrates tomou na prisão, horas antes de sua morte por ingestão de
cicuta, imagino que estejamos todos condenados, mas é preciso continuar tendo
aulas de flauta porque é belo, porque a vida neste mundo não significa muito
sem a beleza e porque não há nada mais sensato a fazer afinal. E é preciso falar as crianças, mesmo que elas
não venham mais a nos ouvir, mesmo que nossas histórias não as toquem como nos
tocavam no passado, mesmo que estejamos condenados como contadores de histórias
precisamos não esmorecer e continuar como se nada estivesse acontecendo de
errado ao nosso redor. Porque somos sonhadores incorrigíveis.
NORIVAL BOTTOS
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