Acabei de ler a última parte da trilogia tebana de Sófocles, Édipo em Colono, lembro-me que já desejava há bastante tempo sua leitura. É bem provável que exista uma espécie de ordem secreta de leitura onde a obra esteja apenas aguardando a ocasião certa para entrar em nossas vidas, e de modo definitivo. Este tipo de pensamento esotérico me parece atualmente tão lógico que não me surpreende o fato de ter apreciado sua leitura ainda mais do que as outras duas partes da trilogia, a meu ver, Édipo em Colono é ainda melhor do que a peça mais famosa, Édipo Rei.
O que mais me agradou foi a escolha de Édipo: morrer num jardim devotado à deusa Deméter é uma tremenda ironia, voltar ao seio materno, é antes de tudo, reconciliar-se com a vida. Édipo morre em um local secreto, apenas o rei Teseu, que lhe dera guarita sabe o local exato de seu leito de morte. No futuro, caberá a um grupo de guardiães guardar o leito de morte.
Sófocles dá ao coro orgiástico o tom certo ao drama familiar de Édipo, é nessa voz que ecoa mais forte que o destino que Nietzsche saberá ouvir a voz apolínea que, sentindo a proximidade do fim, canta: "Antes não tivesse nascido." Não pude deixar de me arrebatar por essa verdade infindável, pois sou também livre para celebrar as ruínas da vida sem sentido, abandonado que sou neste mundo onde os deuses não são mais sequer sombra dos tiranos que um dia assombraram todos nossos antepassados. A vida é aterradora, mas Édipo, esse pai tirano e pesado, nos comove de tal maneira que ficamos muitas vezes indiferentes a essa verdade dolorosa. Porém, Édipo é um fardo pesado desde o nascimento e, se ele, depois de ter matado o pai e casado com a própria mãe só pode desejar uma morte digna, é porque, como o Satanás de Milton, é um grande perito em se recompor e organizar tudo o que lhe resta em meio ao caos.
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