A Comédia de Dante pode ser lida em
qualquer fase da vida. É um clássico, e como acontece com toda obra da
chamada"alta literatura", suas leituras são múltiplas, ou melhor,
infinitas, já que em cada momento da vida em que abrimos as paginas de um livro
já nao somos os mesmos de antes. O autor do grande classico da literatura
italiana dizia que haveria, no mínimo, quatro formas diferentes de leitura de
sua Comédia. Entretanto, nao convém agora entrar no tema de suas
plurissignificações textuais, o que convém nesse momento, e o que farei, é
examinar o que resta da minha primeira leitura da Comédia de Dante, que fiz
quando era garoto e que, por se tratar de uma fase da vida onde só podemos ler
pelo prazer, pelo hedonismo que a literatura encerra, sim, porque a literatura
é uma forma de feliscidade e para essas pessoas, como eu, para os homens de
livros, é a única possível e realmente desejada, é a hedonista. E se torna uma
vida mais feliz ainda, se durante a infancia, temos a chance de ler A Divina
Comédia.
Com auxílio do poeta Virgílio, Dante, ele mesmo narrador em primeira pessoa e personagem principal de seu poema, atravessa os circulos do Inferno, do Purgatório e se atreve a pisar o Paraíso. Se lermos suas paginas, jamais esqueceremos essa travessia. Mas por que Dante teria feito isso? Por que teria se arriscado a tamanho intento? E tao assombroso? A conjectura que melhor me agrada é a mais inferior do ponto de vista crítico, porque ainda é a de minha primeira leitura, a ingênua imaginação de uma criança que se depara com um texto cuja grandiosidade ignora e, por isso mesmo, fica livre para a melhor de todas as viagens _ para a criança que fui um dia, Dante atravessou a noite dos mortos e viu o revoada de anjos celestiais na manhã seguinte porque amava a aventura, Dante foi meu primeiro herói. Trata-se de uma possível leitura somente se voce for uma criança e está longe da real potencialidade da obra, se insistir nesse tipo de ponto de vista, talvez voce tenha serios problemas. digo isso, porque para um adulto é razoavelmente fácil notar que o núcleo primitivo da obra nao é outro senão Beatriz, Dante embrenha-se nos confins do Inferno e do Purgatório por amor, o verdadeiro tema é o amor grandioso por Beatriz. Sabemos também, que para Dante, Beatriz fora tudo, embora para ela, Dante provavelmente tenha representado muito pouco ou talvez nada. Em Nuestra Vita, uma especie de memórias do autor, Dante comenta que só a viu de perto duas ocasiões, e que, em uma delas, seu cumprimento fora recusado. Podemos imaginar o resultado devastador representado nesse amargo desdem da mulher que ama e por quem fará o que nenhum outro homem jamais fez ou fará por mulher nenhuma. É impossivel deixar de imaginar que a verdadeira motivação de Dante para a escritura de sua obra prima seja tão e unicamente o fato de que nao pode tê-la jamais, nem em vida e nem na morte. Beatriz morrera aos vinte e quatro anos e era casada com um certo Barti, se nao me falha a memória, e pior, mesmo no grande sonho que é a comedia, Beatriz continua inacessível. Dante é, ao menos pra mim, a personagem de literatura mais amargurada de todas, nem mesmo o Rei Mcbeth, com suas mãos imundas de sangue é tão completamente amargurado e porque nao dizer, _humano.
Nos poucos momentos que pode passar ao seu lado no Paraíso, continua sendo vítima do desdém e continua humilhado por Beatriz, sempre severa e fria. Para ele, isso não importa mais, conseguiu o que queria, recuperá-la, mesmo que fosse em sonho e talvez, e nisto, minha primeira leitura nao tenha sido tão equivocada, porque nao há aventura maior do que amar e não ser amado.
Com auxílio do poeta Virgílio, Dante, ele mesmo narrador em primeira pessoa e personagem principal de seu poema, atravessa os circulos do Inferno, do Purgatório e se atreve a pisar o Paraíso. Se lermos suas paginas, jamais esqueceremos essa travessia. Mas por que Dante teria feito isso? Por que teria se arriscado a tamanho intento? E tao assombroso? A conjectura que melhor me agrada é a mais inferior do ponto de vista crítico, porque ainda é a de minha primeira leitura, a ingênua imaginação de uma criança que se depara com um texto cuja grandiosidade ignora e, por isso mesmo, fica livre para a melhor de todas as viagens _ para a criança que fui um dia, Dante atravessou a noite dos mortos e viu o revoada de anjos celestiais na manhã seguinte porque amava a aventura, Dante foi meu primeiro herói. Trata-se de uma possível leitura somente se voce for uma criança e está longe da real potencialidade da obra, se insistir nesse tipo de ponto de vista, talvez voce tenha serios problemas. digo isso, porque para um adulto é razoavelmente fácil notar que o núcleo primitivo da obra nao é outro senão Beatriz, Dante embrenha-se nos confins do Inferno e do Purgatório por amor, o verdadeiro tema é o amor grandioso por Beatriz. Sabemos também, que para Dante, Beatriz fora tudo, embora para ela, Dante provavelmente tenha representado muito pouco ou talvez nada. Em Nuestra Vita, uma especie de memórias do autor, Dante comenta que só a viu de perto duas ocasiões, e que, em uma delas, seu cumprimento fora recusado. Podemos imaginar o resultado devastador representado nesse amargo desdem da mulher que ama e por quem fará o que nenhum outro homem jamais fez ou fará por mulher nenhuma. É impossivel deixar de imaginar que a verdadeira motivação de Dante para a escritura de sua obra prima seja tão e unicamente o fato de que nao pode tê-la jamais, nem em vida e nem na morte. Beatriz morrera aos vinte e quatro anos e era casada com um certo Barti, se nao me falha a memória, e pior, mesmo no grande sonho que é a comedia, Beatriz continua inacessível. Dante é, ao menos pra mim, a personagem de literatura mais amargurada de todas, nem mesmo o Rei Mcbeth, com suas mãos imundas de sangue é tão completamente amargurado e porque nao dizer, _humano.
Nos poucos momentos que pode passar ao seu lado no Paraíso, continua sendo vítima do desdém e continua humilhado por Beatriz, sempre severa e fria. Para ele, isso não importa mais, conseguiu o que queria, recuperá-la, mesmo que fosse em sonho e talvez, e nisto, minha primeira leitura nao tenha sido tão equivocada, porque nao há aventura maior do que amar e não ser amado.
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