sábado, 8 de fevereiro de 2014

Cartografia hamletiana, parte 1: Fim de Partida, de Samuel Beckett


“Um dia você ficará cego, como eu. Estará sentado num lugar qualquer, pequeno ponto perdido no nada, para sempre, no escuro, como eu. Um dia você dirá, estou cansado, vou me sentar, e sentará. Então, você dirá, tenho fome, vou me levantar e conseguir o que comer. Mas você não levantará. E você dirá, fiz mal em sentar, mas já que sentei, ficarei sentado mais um pouco, depois levanto e busco o que comer. Ficará um tempo olhando a parede, então você dirá, vou fechar os olhos, cochilar talvez, depois vou me sentir melhor, e você os fechará. E quando reabrir  os olhos, não haverá mais parede. Estará rodeado pelo vazio do infinito, nem todos os mortos de todos os tempos, ainda que ressuscitassem, o preencheriam, e então você será como um pedregulho perdido na estepe”.

Originalidade e solipsismo tardios representam a estranheza máxima de Hamm. Este sombrio protagonista de Fim de Partida, a peça de Samuel Beckett que mais emana diretamente a longa elipse deixada por Hamlet, de Willian Shakespeare, e que mais parece também querer completá-la de algum modo, talvez no lugar mesmo de onde a percepção do príncipe dinamarquês não tenha ido longe o suficiente, de qualquer modo, esse é o drama do silêncio e da amargura de Hamm.  Seu conflito está centrado na própria impossibilidade de ação, no ceticismo shoppenhauriano que remodela Hamlet para o século vinte, impedindo-o da ação derradeira.

Samuel Beckett nos dá um Hamlet que nada pode fazer a não ser reclamar do fato de que é tão anônimo quanto à natureza que existe _ e não existe_ lá fora, no espaço de uma minúscula janela, do alto de uma sala escura, onde Hamm contracena com Flog, seu Horácio transfigurado num periclitante lacaio, e seus pais, Nagg e Nell, ambos escondidos dentro de duas latas de lixo. Se o tema do despertar da consciência do príncipe Hamlet é a sombra maldita que percorre toda a peça, levando-o a falar constantemente sozinho e a agir de modo a praticar a morte de seu tio _ e por influência direta a de vários outros personagens niilistas que virão depois dele, como um Svidrigailov ou um Raskólnikov, para ficar apenas nos romances de Dostoiéviski, o filho mais monstruoso de Shakespeare_ a consciência previamente instaurada na peça de Beckett pode ser vista simbolicamente com o grande impasse da modernidade, livre da representação, mas entregue a solidão atróz da existência fragmentada e da ausência total de qualquer sentido, sendo assim, as duas obras se ligam ainda pelo fim de algo que ambas profetizam cada uma a seu modo.

A consciência irônica de Hamlet, quando totalmente desperta, se transforma numa imensa onda de violência e solidão absoluta, mas ainda uma consciência universal,porém, o Hamlet do fim da peça está extremamente envelhecido após o assassinato inútil de seu tio, ao passo que, em Fim de Partida, a consciência de Hamm vem acompanhada do vigor e da vontade de viver que deverá, obviamente, se auto- esfacelar no limiar mesmo do próprio ato, pois é o corpo envelhecido e cego de Hamlet que Hamm representa, e que também é uma visão muito particular de ver o problema do fracasso e da ausência de sentido. O grande fantasma do Pai só pode reviver nesse drama reencenado por Hamm, o último sucessor de uma longa fila de personagens que dão a entender que enlouquecem porque sabem demais, mas um saber inaudito,um silêncio que o mundo todo ignora.

PSICOGEOGRAFIA E QUARTA-DIMENSÃO NO ROMANCE “AVALOVARA”, DE OSMAN LINS.


 

 

 



 

Tentarei neste trabalho analisar alguns dos conceitos de quarta-dimensão, a partir do teórico James Hinton e, por fim, da psicogeografia, sobretudo dos estudos de Guy Debord sobre a psicogeografia e os campos de ressonância, para tentar situar, dentro do romance Avalovara, uma possível resposta para a noção de recriação do mundo através do desvelamento da verdade pela arte, um dos temas que formam o leitmotiv osmaniano. Acredito que a concretização dessas forças se expresse concretamente pela recorrência de certos espaços, de certas energias que fluem de diferentes extratos e segmentaridades e cuja realidade espiritual é capaz de fluir e se multiplicar, como uma viragem, formando, desse modo, processos intercambiáveis de sentido, visíveis apenas por aqueles personagens osmanianos que jamais se vêem inteiramente formados, porque ainda estão em busca de suas próprias formas. Semelhante ideia é proposta por Gilles Deleuze a respeito da noção de rizoma:

 

...qualquer ponto de um rizoma pode ser conectado a qualquer outro e deve sê-lo. (...) cadeias semióticas de toda natureza são aí conectadas a modos de codificação muito diversos, cadeias biológicas, políticas, econômicas, etc., colocando em jogo não somente regimes de signos diferentes, mas também estatutos de estados de coisas...[1]

A criação cosmogônica provavelmente pertence à busca da lei do “Uno”, a infinidade binária multiplica-se em outras raízes secundárias como forma de retorno ao estágio inicial. Os personagens osmanianos usualmente percebem que estão diante de uma estranheza que, na maioria das vezes prova ser uma polifonia de pontos de vista que se assemelha a uma ramificação oculta que, ou não pode ser assimilada ou as assimila de tal modo que naturalmente se deixam envolver por essa “realidade outra”, nem estranha nem absurda. É sempre de um modo muito poético que o texto osmaniano nos revela essa raiz oculta, onde olhos habitam dentro de outros olhos, “... sob o olho direito posto no seu devido lugar, outro olho direito me contempla, frio, através da lente...”[2]ou ainda “Tão vazia é a casa, tão silente a cidade, que parece haver outra mulher falando noutro quarto, com a mesma voz escura e atravessada por baratas em voo, ratos esqueléticos.”[3] São quartos escuros, ruas silenciosas e cemitérios que habitam dentro de outros quartos, ruas e cemitérios, remodelando não apenas o espaço, mas o próprio tempo. Em Osman Lins há sempre a tentativa de harmonizar uma linguagem poética que comporte a existência mitológica imbrincada com o elemento racional da geometria, desse modo, forma e intuição poética não se chocam, não entram em conflito porque é, ao fim, o mesmo fragmento de um projeto que o autor assume diante de uma imensa herança, ou seja, como atitude original, além de uma visão literária própria e singular.

O espaço em Osman Lins: os campos de ressonância e a psicogeografia.

A poética cosmogônica de Osman Lins é sopro na argila ainda disforme do mundo contemporâneo, é sopro que procura libertar, _ mesmo que a tarefa seja vã_ a eterna dualidade dos opostos de Parmênides, pois, em sua arquitetura poética, o escritor brasileiro tenta não apenas unir Apolo a Dioniso, mas, sobretudo, torná-los a própria harmonia da representação pela arte. O êxito só pode ser temporário, como o filósofo Friedrich Nietzsche afirmava, porém, em se tratando de obras como Avalovara e Nove Novena, trata-se de um empreendimento nada frágil. Note-se que o termo “arquitetura dionisíaca”, supracitado, não representa um termo contraditório, mas um novo tipo de imperativo dentro de uma construção tão rigorosa, formal e ao mesmo tempo intuitiva e poética. Osman Lins se situa numa vertente bastante diferente da voga existencialista do mesmo período, esta última bastante influenciada pela fenomenologia de Martin Heidegger, que via no dilema do devir da existência do ser o grande enigma. Para Osman Lins, tempo e espaço deveriam formar um Uno inseparável, o que, de certo modo, representa um retorno à teoria de Kant. É a partir desse conceito de harmonia dos contrários, de harmonia de tempo e espaço que trataremos no presente trabalho a respeito do problema de como se fundamenta em algumas obras do autor pernambucano, sobretudo, na chamada segunda fase, que tem inicio em Nove Novena e alcança o paroxismo estilístico em Avalovara que se pode perceber de modo recorrente os conceitos de psicogeografia e campos de ressonância influindo profundamente na dualidade mito/geometria.

O primeiro passoa analisar é a importância de algumas características da categoria do espaço dentro da obra do autor pernambucano. De início trataremos dos conceitos de psicogeografia e dos campos de ressonância. Trata-se, nesse caso, de tentar apreender a força de ressonância emotiva por trás de certos espaços, de lugares especiais, cuja recorrência na obra de Osman Lins se afasta em muito da mera casualidade, nesses espaços, a energia contida se efetiva num transbordamento de realidade em sonho, unindo razão e magia, _ não é produto do acaso que esses lugares sejam identificados com espaços sagrados e dotados de uma magia transcendente, como afirma Mircea Elíade _ existe uma espécie de força de atração, campos gravitacionais muitos estranhos da chamada ciência do caos, esses elementos, como queremos defender, são fundadores da quarta-dimensão, também são capazes de apreender virtudes mitológicas através da ressonância com as qualidades psicológicas e emotivas que um determinado espaço _ um espaço privilegiado _ pode nos suscitar. Michel Foucault chamou esses espaços privilegiados de heterotopias, embora sua ênfase não tenha de modo algum recaído sobre o tema da mitologia[4].

Nos campos de ressonância, passado e futuro se mesclam ao tempo presente, formando uma espécie de continuum, esse mecanismo é um recurso bastante utilizado por Osman Lins através da chamada narrativa cubista, capaz de mesclar num mesmo instante, várias perspectivas imagéticas e temporais diferentes. A ressonância implica a noção da recorrência de uma realidade cujos acontecimentos trágicos e marcantes se perpetuam, como uma espécie de rastro, fora do tempo linear. Esse fenômeno também é percebido como premonição, quando se sonha com algo que vai acontecer, mas que, de fato, já ocorreu em diferentes épocas. A psicogeografia estuda justamente essa íntima conexão do espaço físico, com a força que habita seus limites, e principalmente, com a repetição de certas ocorrências dentro desse espaço de força mágica. A psicogeografia é um fluído, é uma forma de reconfiguração de certos espaços dotados de energia psicológica, são símbolos, ou seja, modos especiais de ver as qualidades míticas de certos espaços e sua recorrência na vida das pessoas.

A psicogeografia, a ressonância de certos fatos ao longo do tempo, com os atratores estranhos da ciência do Caos, além da condição criadora da linguagem, da palavra, que é a base da magia da arte está representada de forma marcante na busca criativa do escritor Abel, emAvalovara por suas andanças pela Cidade, personificada na figura alegórico-ritualística de Roos, sua amante europeia:

 

...  beijo-a. Ouço um rufar de tambor, é um grande tambor, surge do chão brilhante o cortejo invisível que nos segue, um estandarte sanguíneo ondulando entre lanças de metal sobre os chapéus de feltro cônico, de abas amplas, um clarão (vindo de Roos?) põe em relevo os rostos vivos dos homens, ornados com perucas que descem até os ombros, destaca as golas engomadas e lisas, as vestes da mulher que se insinua entre eles, a caixa do tambor e, principalmente, o ataviado personagem que vem à testa da ronda. Lanças entrechocam-se, avulta o bater ritmado do tambor, esse rataplã nas ladeiras de Olinda, cada vez mais próximo o tropel das botas com polainas de batista, vozes, risos, risadas, barulho de colares, estalar de línguas, roçar de tecidos, somos atravessados como a própria rua pelos homens, pela mulher que os segue, os tambores vibram em nossos flancos, o estrépito das botas (o mesmo que estremece as paredes do Recife) repercute forte em nossos pés, o latejar dos seus sangues pulsa em nós e ouvimos sobre nossas cabeças descobertas o adejar do imenso estandarte cor de vinho.[5]

 

Abel se abre para a experiência de premonição de tempos aos quais não poderia fisicamente estar ligado sem a experiência do contato com a quarta-dimensão. A multidão que o atravessa após o clarão pertence ao passado que une a história do nordeste brasileiro à Holanda, quando da ocupação holandesa em Pernambuco. Nesse campo de força de ressonância, Abel passa a enxergar em todas as direções, tempos conflitantes, como passado e presente se mesclam, os invasores do passado ressurgem em sua terra natal, deixando de ser entidades invisíveis, esses espíritos do passado ligam não apenas passado e presente, mas também Abel e Roos, em torno de acontecimentos caleidoscópicos de vários tempos que se efetivam num mesmo instante iluminador e ritualístico. No contato com a personagem Roos, arquétipo da grande mãe, criadora de todas as cidades, Abel, escritor potencialmente forte, porém, ainda em fase de autodescoberta, se liga por meio de um rito iniciático bastante emblemático.

O estudo da chamada psicogeografia nos permite repensar o que contraditoriamente nos habituamos a chamar de realidade, pois a partir do momento em que nos aproximamos desses campos de energia, ou seja, dessa condição caótica que chamamos de realidade, o que se torna ainda mais evidente é a reincidência de certos acontecimentos que, separados pela noção de tempo cronológico, se mostram apenas como habituais, porém, vistos pelo prisma da psicogeografia, o que antes parecia fruto do acaso ou produto de imaginação se torna, ela mesma, a própria realidade histórica. Estas recorrências nos ajudam a apreender a função do mito, os personagens míticos geralmente devem buscar transcender a condição inicial a que estão relegados no início da narrativa mitologizante, eles devem transcender os atos habituais, devem ultrapassar as limitações do tempo e espaço inicial, enfim, o herói iniciático deve buscar na jornada mítica a chance de vencer certas barreiras, certas etapas da vida, nesse sentido, o estudo da psicogeografia pode nos ajudar a compreender o espaço da narrativa mítica:

 

Poderei, entretanto, descrever as cidades que flutuam no seu corpo como refletidas em mil pequenos olhos transparentes? Como dizer que penetro nesses olhos _ olhos ou dimensões _ e constato que as cidades, aí, são ao mesmo tempo reflexo de cidades reais e também cidades reais? Inumeráveis, íntegras as cidades de Roos...[6]

 

Guy Debord (1958, p.457) descreve a psicogeografia como “... o estudo de específicos efeitos do ambiente geográfico, conscientemente organizados ou não, nas emoções e comportamentos dos indivíduos”. Debord se refere ao fato de que é o espaço que modela o homem e não o contrário, e isso têm a ver pelo modo como o homem sente as vibrações de certos lugares, onde, provavelmente, nunca esteve antese como estas vibrações agem sobre nós, para o bem ou para o mal. Isto pode também estar relacionado com a estrutura de uma determinada construção, com as camadas de história esquecida desses lugares. O espaço não é uma abstração, mas uma construção psicológica que nossa consciência permite edificar sobre as bases da realidade e das sensações que esses espaços nos suscitam. Para Guy Debord:

 

...beyond this “discovery” of such unities of atmosphere, the maps also describes their chief axes of passage, their exits and their defenses (…) the psychogeography turntables of the map’s  subtitle allow one to assert “distances that may be quiet out of scale with what one might conclude is from a map’s  approximations.”16 Such distances become blank areas in the Naked City, gaps that separate the various fragments. The suppression of the linkages between various “unities of atmosphere,” except for schematic directional arrows, corresponds to the procedure called “asyndeton” _ a process of “opening gaps in the spatial continuum “and” retaining only selected parts of it”.[7]

 

Segundo Guy Debord, a psicogeografia funciona como um mapa onírico e emotivo de um terminado local, ao passo que o mapa geográfico tradicional é opaco, homogêneo e incapaz de representar todo o arcabouço de contradições, violência, segregação que há dentro de cada espaço. Esse mapa abstrato forma um conjunto de narrativas cujo sentido principal é a representação de um evento carregado de conotações psicológicas, são campos de ressonância.

Os campos de ressonância são as fontes de energia, o rizoma que ultrapassa os limites cada vez mais vastos de silencio que os seres humanos compartilham em sua condição conflituosa com o ambiente, em seu próprio mundo, reconhecê-lo, ter algum tipo de informação que nos permita ver a presença divina no mundo e em nós. Os homens sempre estiveram muito conectados aos espaços capazes de expandir sua energia. Nesse sentido, o conjunto da obra de Osman Lins pode ser considerado como de livros-raiz, termo cunhado por Deleuze.

Os espaços de ressonância, as heterotopias, bem como as utopias, evidenciam que há uma relação psicológica por trás de certos espaços, são locais dotados de conexões positivas e negativas, além disso, esses espaços atraem para si todo um complexo temático de motivações míticas. Pode-se então inferir que há a possibilidade de certos espaços inferirem para si todo um complexo de temas míticos que são também, intimamente relacionados com a obra de arte. A plasticidade mítica e o seu outro lado, a fragmentação cubista da quarta-dimensão, concorrem para redimensionar a experiência artística. A psicogeografia, a ressonância de certos fatos ao longo do tempo, com os atratores estranhos da ciência do caos, da condição criadora de linguagem, da palavra, que é a base da magia da arte literária, está representada, de forma marcante, na busca criativa do escritor Abel, em suas andanças pelas Cidades-Roos. Ressonância, passado e futuro se fundem numa mesma realidade, num continuum, como se contemplado do exterior, de uma quarta-dimensão.

Mito e quarta-dimensão em Osman Lins

Se os campos de ressonância assumem papel de abertura e redistribuição dos valores exponenciais do tempo e espaço sobre a visão tipicamente perspectivista, como se pode ver nas narrativas tradicionais ou mesmo em algumas marcadamente existencialistas, em Osman Lins, ao contrário, o que se nota é a recusada abolição da harmonia entre os opostos, desse modo, o espaço é uma categoria tão essencial quanto o tempo. A quarta-dimensão é então, a ponte para a experiência mítica resultante desta abertura. O rigor da construção cosmogônica resulta numa serie de rearticulações no corpo da superfície do real, a linha concomitante do plano tridimensional é substituído pelo espaço/tempo simultâneo, ao mesmo tempo, como expressão de uma proposição altamente vinculada ao resgate de um plano metafísico, aquilo que éexprimível pelo retorno da forma, da geometria e da palpabilidade dos objetos, das coisas e dos seres eque, se não se apresentam em sua antiga inteireza, ao menos não desvanecem por completo da superfície do mundo como resultado de toda negação metafísica a que se ocupou quase toda a tradição do pensamento ontológico do século vinte.

Percebe-se, nesse caminho de recusa, o sentido imaterial resultante da revalorização do espaço, o que se nos apresenta em Osman Lins é uma natureza completamente diferente que brota dessa nova percepção e das coisas que nele aparentemente não habitavam, pois o espaço tridimensional é limite que faz calar e transformar em reclusão um mundo que se reorganiza de modo convulso porque não conhece as “dobras” invisíveis que permeiam a existência da matéria. Essa característica da narrativa osmaniana ainda não foi inteiramente percebida, devido, provavelmente, a ausência de percepção da quarta-dimensão e suas possibilidades de abertura para o plano mítico e ontológico, algo que Osman Lins sempre procurou desvelar através de seus estudos exaustivos sobre quiromancia, alquimia e a teoria de Pitágoras.

Há, portanto, uma relação especial entre a arte, mito e o tempo/espaço contínuo. Lins é extremamente hábil no uso das tendências cubistas e futuristas na intenção de explorar as noções de tempo e espaço e sua relação com o mito. Para Lins, o cubismo é um avanço, pois lhe permite se desvincular da perspectiva única, o que chama atenção para o seu modo particular de estruturar suas narrativas sob o ponto de vista da arte cubista é o modo como combina múltiplos pontos de vista dentro de uma única forma. O leitor de Avalovara, para citar apenas algumas das obras da fase madura, não vê um objeto por apenas um único ângulo, mas é levado a contemplar os vários pontos de vista simultâneos, ângulos multidimensionais por onde objetos e personagens podem ser contemplados a partir das mais variadas possibilidades. O leitor tem em mãos uma narrativa que mescla poesia e prosa, geometria e caos, mito e quarta-dimensão. Essas fraturas dimensionais se cruzam, os personagens e o mundo passam a pertencer a uma espécie de decupagem ou “dobra” simultânea, a partir dessa dobra existencial, o leitor se acostuma rapidamente a ver o personagem e o mundo pelo avesso, que é exatamente o que se veria, caso a quarta-dimensão se nos abrisse por completo seu plano de existência espiritual.

É no plano mítico que intuímos essa abertura para a interação do tempo e do espaço, ao se conectarem de maneira simultânea, passado e futuro se fundem com o presente numa mesma realidade, num mesmo plano, formando um continuum, como se contemplado do exterior, de uma quarta dimensão. Os campos de ressonância são justamente as fontes de energia,de onde o rizoma, que ultrapassa os limites cada vez mais vastos de silencio que os seres humanos compartilham em sua condição conflituosa com o próprio ambiente, em seu próprio mundo, reconhecê-lo, ter algum tipo de informação que nos permita ver a presença divina no mundo e em nós. Estamos muito conectados a certos espaços capazes de expandir suas energias.

A quarta dimensão pode ser entendida como um relacionamento especial entre o espaço e o tempo, onde ambos convergem em amplas e variadas dimensões, se tornando multiplamente presentes. Quando há interação do leitor, seu próprio espaço-tempo se torna relato e evocação, tudo literalmente e se expandindo de modo exponencial. A quarta dimensão é fonte para a interação e experiência humana. A espontânea relação tempo/reale todas essas forças juntas criam uma etérea dimensão de si própria, a quarta dimensão é sempre simultânea, plural, onde as dimensões se aprofundam e se cruzam incessantemente, ligadas a parte da experiência individual. Há uma relação especial em romances cubistas e sua relação metafórica e literal com o espaço contínuo, a quarta dimensão:

 

Não julgar que a existência humana, enquanto inconclusa, seja um poliedro incompleto do qual a morte é o último lado, não, o poliedro move-se e suas faces e arestas proliferam, crescem conosco, mais ou menos brilhantes, assim é com todos e mais ainda comigo, de vida dúplice, duas vezes nascida, com duas infâncias, duas idades, dois corpos, de modo que as faces do poliedro se trespassam, umas em outras se refletem: sou ensamblada, incrustada em mim.Toda a minha vida, pois, está aqui, neste instante, instante? não há instante, instantes, o que assim denominais é a vossa própria vida, poliedro de inumeráveis faces transparentes, estas, as faces, são o que instantes nos parecem, um destes contemplai, uma destas faces, e vereis ser impossível ignorar as outras. Sob dúplice óptica vejo o mundo e falo com boca dupla.[8]

 

Negando a ideia de que o tempo aponta para frente ou para trás, imagem comum nos textos (ou mágicos). A ressonância pode ser vista de uma perspectiva matemática: auto recorrência de uma figura fractal, permanentemente reiterando-se em seus diferentes extratos de interpretação. Assim, a realidade de um acontecimento trágico, dramático, violento, se perpetra através do tempo, deixando um rastro temporal, tanto para frente _ quem viveu o fato o terá na memória, quanto para trás _ as chamadas premonições de um incidente grave a ocorrer com o filho, isso ocorre por tudo existir simultaneamente, num espaço limitado e reduzido, mas que não conseguimos abarcar:

 

...a sombra de um lírico grego, vertido para uma língua que não é a de Goethe nem a de Camões por um tradutor do século XVIII, lido por mim numa edição de mil setecentos e tantos cheirando a fumo e a vestidos velhos, em voz alta, junto à cisterna do chalé, enquanto soam apagados risos da Gorda e as vozes dos meus vários irmãos, fala pelas nossas bocas a dois milênios e meio de distância e estabelece entre nós um liame provisório, mas nada frágil.[9]

 

É possível perceber que os contornos históricos de certos lugares ganham primazia na obra de Osman Lins, além de um raro sentido espiritual como modo de pensar que se encaminha sempre para o mito como forma de conduta, como meio de passagem por entre diversas etapas da vida, sobretudo quando seus personagens alcançam a epifania da descoberta da unidade perdida, da possibilidade de reconquistá-la.

Quando nos aproximamos da realidade, quanto mais nos aproximamos das vidas das pessoas, a condição caótica da realidade se faz mais e mais evidente, as casualidades começam a aparecer e, o que se acreditava agora é fictício, o que foi inventado em nome da coerência dramática começa a se encaixar com os fatos mesmos, a se tornar realidade histórica. Desse modo, além de se relacionar de forma não profana com os mitos, personagem que transcende a si mesmo, aos seus atos, ambiente e tempo, passando a pertencer àquela zona nebulosa que chamamos de história. Há uma espécie de vórtice, em termos simbólicos, dos atos do passado ecoando indefinidamente.

Para Osman Lins, o que importa não é exatamente o espaço, mas a ambientação, que provoca, na narrativa, a noção específica de uma atmosfera, adequada ao enredo que se pretende estabelecer com características imageticamente dotadas de implicações míticas. Para as suas narrativas se sobressaem a dissimulação, recurso que exige que seus personagens ativem sua identificação com o espaço e também com aquilo que se precise “fazer” naquele dado lugar. O espaço nasce dos gestos dos personagens, se imbricam, se entrelaçam e criam uma realidade outra, um espaço outro.

Símbolos afetam de modo sutil a mente humana, em portes dóricos espalhados por quase todo o mundo cristão, ainda permanece a energia e a intenção dos primeiros arquitetos dionisíacos de perpetrar a sensação de terror, a grandiloquência das antigas divindades como Hércules e Marte, deuses da força, da sabedoria e da guerra. A sintonia dessas construções reverberam vozes do passado e ecos do porvir. O espaço de ressonância espelha o próprio infinito. O tempo a que temos acesso é mera ilusão humana, no verdadeiro tempo, que é o da quarta dimensão e dos mitos, todos os tempos coexistem, desse modo, os espaços de ressonância são como que fissuras de energia e magma da quarta dimensão.Em Roos, Abel percebe a reverberação de ecos indistintos de espaços distantes um dos outros, porém, suficientemente ligados pelos destroços do passado mítico, de domínio das deusas (cidades), num tempo a-histórico, quando a geometria, a razão e a ciência ainda não haviam tomado o poder.

A reflexão sobre as propriedades psicológicas do espaço é, de certo modo, uma continuidade com os estudos das imagens primitivas, como é o caso de Gaston Bachelard. O que se percebe é a rejeição da cristalização do pensamento que filosofa e racionaliza em demasia. Intuir e sentir os abalos das imagens adensadas de energia e fluidez exigem, à guisa de preâmbulo ao exame das recorrências traumáticas, o necessário envolvimento com um passado de sonhos e pensamentos que nos ligam ao inconsciente concentrado que se percebe em certos espaços que se reafirmam constantemente como atratores de energia, que geralmente funcionam como heterotopias, ou seja, como espaços de exclusão.

O exame dessas concentrações de energia em torno de alguns espaços faz com que a grande força de um acontecimento passado retorne, às vezes indefinidamente, como as linhas convergentes da geometria do caos, à qual esses espaços estão intimamente vinculados. Transbordando e carregando alguns espaços com extrema individualidade, que se torna um raro senso de isolamento, algo sem dúvida perceptível mesmo àqueles que habitualmente racionalizam a ligação entre tempo e espaço.No texto osmanianos, esses espaços carregados de memória e evocação mítica usualmente são adornados por imagens metafóricas recorrentes, como a do pássaro, cujo simbolismo não raro desliza para a forma simbólica da esfericidade, ou como um desenho do ser, completo e uno. É nesse sentido que divaga Jules Michelet:

 

... O pássaro, quase totalmente esférico, é por certo o ápice, sublime e divino, da concentração viva. Não se pode ver, nem mesmo imaginar, um grau mais elevado de unidade. Excesso de concentração que faz a grande força pessoal do pássaro, mas que implica sua extrema individualidade, seu isolamento, sua fraqueza social.[10]

 

A extrema concentração psíquica força o isolamento, desses lugares “sagrados” ou mesmo de “exclusão”, é difícil não nos deixarmos levar pelo reino da imaginação nesses lugares. De acordo com Bachelard:

 

... o aspecto metafísico nasce no próprio nível da imagem, no nível de uma imagem que perturba as noções de uma espacialidade comumente considerada capaz de reduzir as perturbações e de devolver o espírito à sua posição de indiferença diante de um espaço que não tem dramas a localizar.[11]

 

O ser da imagem tanto pode vir carregado do que a psicogeografia chama de atratores de energia, quanto desfrutar de seu caráter oposto, que é a imagem do efêmero, à qual Bachelard se posta e que, neste estudo, não deixa de pôr em destaque. A cosmogonia de Osman Lins está longe de jogar com o puro detalhismo abstrato, a possibilidade de união dos opostos é um Leitmotiv recorrente. Em Avalovara, por exemplo, a linguagem busca alcançar o ápice dessa busca, geometria e mito se interpenetram, com harmonia automática, o elemento que embriaga pela poesia não recusa a exatidão, o rigor formal, os elementos naturalmente contrários se buscam acalentando sempre a estabilização da figura arquetípica do Uno Primordial. Temos pistas o tempo todo nesse sentido, ora na estrutura de certos espaços (Roos e as cidades) ora na própria figura da última amante do protagonista, a personagem hermafrodita com quem Abel se une no final do romance, em cima de um tapete adornado com vários motivos mitológicos:

 

... Pouco importa, além disso, que ingressemos, os amantes, em algum gênero de futuro. Devemos completar, mediante rítmica e feliz ordenação, o complexo arcabouço a nós confiado. Este é um confronto sem depois _ ou no qual o depois já pertenceria a outra órbita ou círculo. (...) Abraçamo-nos com um grito surdo e tombamos no tapete. Vejo-a, na queda, um par de olhos fitando-nos entre os ramos. A Cidade aproxima-se do vale ensolarado como uma nuvem de aves migradoras, a Cidade e seu rio, extraviada, tanto a procuro e agora surge na luz do meio dia, pousa na plantação, sem nome e um pouco gasta em seu esplendor.[12]

 

Osman Lins redescobre para a literatura o rigor das formas e dos volumes subterrâneos dos objetos que silenciaram no mundo no mundo exterior. Há toda uma concomitante concentração de imagens, metade rígidas, metade sentimentais, suas obras maduras sintetizam o velho sonho esquecido da união dos contrários, do ponto natural onde a convergência do apolíneo e do dionisíaco é tão natural que dá-nos, sem dano ou prejuízo, outra realidade, que é o jardim-de-infância e o asilo num só golpe. Não há imagem recortada em algumas de suas obras que não esteja submetida às flutuações da aparência que desejamos dar ao todo. Por isso a ligação entre o mito e esta outra realidade que se abre com o nome de a quarta-dimensão é tão essencial em sua arte, porque vemos nessa fusão uma harmonia que não estende nenhuma fria sombra niilista, essa arte do rigor e da inspiração está ligada à busca do absoluto. Desprezando a narrativa que tende a desaparecer, vemos emergir em seu lugar a própria vida como uma nova compreensão do ser humano e do mundo. O que se tentou defender no presente estudo é o fato de que as experiências ficcionais não se limitam ao sonho, à fantasia, ao devaneio do inconsciente liberto, que é uma falsa associação com o surrealismo, mas antes, defender uma ideia precisamente contrária, de que há uma serie de camadas de memória mítica escondidas nos mais variados espaços urbanos, como em parques de diversões, igrejas, cemitérios, ruas abandonadas, pára-raios, varandas, e muitos desses lugares, por mais que sejam considerados mundanos, mas que escondem certas características diferentes, todos esses lugares dotados de uma iluminação diferente, em muitos casos profana, se observarmos mais de perto, mas geralmente de exclusão, e que formam e deformam os textos literários de um modo muito intenso.

O puro devaneio não afeta a nossa percepção do real, porém, quando certos acontecimentos fluem e refluem aqui e ali, dentro de uma obra de arte, então temos uma ligação que pode ser mais profunda do que aparentemente se percebe. Entre os seres que sonham nesses espaços o fio condutor, a corrente de energia que desliza por eles é como um fio desencapado, essa energia pertence ao continuum da quarta-dimensão, onde outros sonhadores sonham o mesmo sonho. É nessa esfera, para além da dimensão visível, que se escondem olhos dentro de outros olhos, que são imagens bastante habituais dentro da obra osmaniana.

Em Avalovara as imagens que emergem, somem e reverberam em outros lugares, em outros tempos, cuja intermitência flutuante se conjuga perfeitamente com a busca pela harmonia, pela quarta-dimensão, a forma e o conteúdo; a razão e emoção; a geometria e o caos; o mito e a poesia. A aparente contradição dos opostos não se limita a uma flecha lançada por Parmênides em direção a toda história do mundo ocidental, a aparente contradição de tudo que se repele está longe de ser um natural jogo da natureza com o homem que se vê obrigado a escolher entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, entre a razão e mito. Na verdade, o suporte deste modo de enxergar o fascínio do mundo é apenas uma tentativa contrariada e ornamental de, efetivamente, negar a totalidade e a harmonia entre o homem, a natureza e o cosmos; essa realidade feérica, limitada pelo ornamento é real, mas não mágica. É nesse sentido que Osman Lins surge como recriador dos problemas “reais” que sempre nos atormentaram, nessa vocação para enxergar nas figurações do mundo e nos pares de opostos que nos rodeiam a eterna contradição de se constituir como um apriori inacabado.

 

BIBLIOGRAFIA

BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. Tradução de Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

DEBORD, Guy. InternationaleSituationist: texts and documents. Edited by Tom McDonough.Massachussets: MIT, 2001.

DELEUZE, Gilles. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. V.1. Tradução de Ana Lúcia de Oliveira, Aurélio Guerra Neto e Celia Pinto Costa. São Paulo: Ed. 34, 1995.

ELÍADE, Mircea. Mefistófeles e o andrógino: comportamentos religiosos e valores espirituais não-europeus. Tradução de Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

LINS, Osman. Nove, Novena: narrativas. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

____,________. Avalovara. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

MICHELET, Jules. Apud. BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. Tradução de Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

 

 

 

 

 

 

 



[1] DELEUZE, p. 30
[2] LINS, 1994, p 122
[3] Idem, p. 127
[4] ELÍADE, 1999, p. 14
[5]LINS, 2005, p. 38
[6]LINS, 2005, p.28
[7]DEBORD, 1958, p. 457
[8]LINS, 2005, p. 28
[9]Idem, p. 48
[10]MICHELET, Apud Gaston Bachelard, 2005, p.240
[11] BACHELARD, 122
[12] LINS, 2005, p.318-319

a linguagem literária


O que diferencia, para mim, a obra literária de todos os outros textos é seu poder de transbordamento da linguagem. Vemos como esses textos se desprendem facilmente de seus supostos e inexistentes autores. O autor é necessário no instante da criação, mas depois, é preciso que essa primeira camada de pele se solte. Ano após ano as camadas de pele que uniam o autor a sua obra vão se despregando ainda mais facilmente. A última camada é o desvelamento que não se fecha mais, não se permite mais reconhecer este ou aquele sentido, antes facilmente reconhecível pela intenção inicial de quem se propõe a escrever.

Diário de leitura: Édipo em Colono.

     Acabei de ler a última parte da trilogia tebana de Sófocles, Édipo em Colono, lembro-me que já desejava há bastante tempo sua leitura. É bem provável que exista uma espécie de ordem secreta de leitura onde a obra esteja apenas aguardando a ocasião certa para entrar em nossas vidas, e de modo definitivo. Este tipo de pensamento esotérico me parece atualmente tão lógico que não me surpreende o fato de ter apreciado sua leitura ainda mais do que as outras duas partes da trilogia, a meu ver, Édipo em Colono é ainda melhor do que a peça mais famosa, Édipo Rei.
     O que mais me agradou foi a escolha de Édipo: morrer num jardim devotado à deusa Deméter é uma tremenda ironia, voltar ao seio materno, é antes de tudo, reconciliar-se com a vida. Édipo morre em um local secreto, apenas o rei Teseu, que lhe dera guarita sabe o local exato de seu leito de morte. No futuro, caberá a um grupo de guardiães guardar o leito de morte.
     Sófocles dá ao coro orgiástico o tom certo ao drama familiar de Édipo, é nessa voz que ecoa mais forte que o destino que Nietzsche saberá ouvir a voz apolínea que, sentindo a proximidade do fim, canta: "Antes não tivesse nascido." Não pude deixar de me arrebatar por essa verdade infindável, pois sou também livre para celebrar as ruínas da vida sem sentido, abandonado que sou neste mundo onde os deuses não são mais sequer sombra dos tiranos que um dia assombraram todos nossos antepassados. A vida é aterradora, mas Édipo, esse pai tirano e pesado, nos comove de tal maneira que ficamos muitas vezes indiferentes a essa verdade dolorosa. Porém, Édipo é um fardo pesado desde o nascimento e, se ele, depois de ter matado o pai e casado com a própria mãe só pode desejar uma morte digna, é porque, como o Satanás de Milton, é um grande perito em se recompor e organizar tudo o que lhe resta em meio ao caos.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

A máscara como símbolo do artista em Thomas Mann


 

 

Minha intenção aqui não é de tentar esgostar o tema que me proponho discutir, a saber, a visão extremamente peculiar e original de Thomas Mann sobre o problema da verdade da arte e da real condição do artista. A parte o fato de que se trata de uma tarefa impossível, pois cremos que a obra de arte literária comporta uma multiplicidade muito grande de possibilidades de leitura.

 Lendo Thomas Mann, parece-nos difícil ignorar o fato de que seus personagens representam as próprias idéias e concepções filosóficas de seu autor, que, como já vimos, tentou se distanciar o quanto pôde da figura titânica de seu Pai Poético, Goethe. O que desejamos defender em nossa pesquisa é que Mann, abraçando a teoria nietzschiana da inversão platônica de todos os valores morais, espirituais e artísticos, tão amplamente professados na arte do poeta precursor e no próprio movimento artístico anterior, buscou subverter em suas obras o que antes era tido sintetizado como a verdadeira essência, ou seja, o fato de que a existência do mundo sensível não é outra coisa que uma cópia imperfeita do mundo supra-sensível.

Com efeito, são personagens como Adrian Leverkhun e Gustav Von Aschenbach, dotados de incrível estranheza que parece repousar muito além do fato de que suas existências protagonizaram acontecimentos tão próximos de seu país e de seu autor e de sua época, e, que, por mais paradoxal que possa parecer, _ e, de fato o é, _ encontramos uma concepção filosófica por trás de cada de um desses “persongens-idéias”, onde reina a figura do artista que subitamente se vê obrigado a representar a decadência fisiológica e espiritual de todos os valores burgueses rumo ao crescente e ameaçador despertar do riso, do exagero e do erotismo, com um sensível e recém-descoberto entreouvir-se a si mesmo.

A figura do artista é constantemente acompanhada de seu daimon interior. O que está em evidencia em “Morte em Veneza” e em tantas outras obras de Mann é a discussão sobre o lugar do artista numa sociedade burguesa, esse verdadeiro “Cain”, o poeta tardio que não pode representar verdadeiramente o seu grupo social sem cair em aporia com a essência de sua própria perquirição sobre a verdadeira natureza da arte.

Para o artista representante da esfera burguesa da Alemanha do final do século dezenove o que o inquietava era a posição incômoda que o artista ocupava no seio dessa sociedade. Talvez incomodasse mais ainda a Thomas Mann seu próprio caráter antitético no seio de uma sociedade ambivalente em relação ao papel da arte. No contexto ideológico da Alemanha burguesa o não seria menos um representante dos ideais sociais e morais cristalinamente espelhados nas melhores virtudes de seu povo do que a figura do artista como um falsário, um enganador, um imoral, um ator, como bem definiu Nietzsche em “Vontade de Potência” (p.126), “Problema do ator: A insinceridade, a típica força de transformação como falta de caráter ... a falta de vergonha... o sátiro, o bufão, o Gil Blas, a ator que desempenha o papel de artista”.

Malgrado o fato de que o artista seja alguém que em nada pode contribuir para o progresso material de uma sociedade baseada no comércio como fundamento de sua própria existência, a artista não pode se entregar ao pensamento que vê na moral burguesa e na força do trabalho os verdadeiros pilares de uma sociedade baseada na evolução positivista de verdade.

 

 

 

 

 

a tarefa do tradutor sob a perspectiva de Walter Benjamin



A perspectiva na qual é abordada a teoria benjaminiana é certamente nova e radical. No momento em que sua teoria parece ganhar contornos próprios, Benjamin se esforça para não nos deixar esquecer que a tradução não deve buscar a semelhança entre a obra original e seu análogo projeto de tradução, mas, antes, não devemos nos desviar da senda que leva àquilo que ele chama de parentesco das línguas. Em outras palavras, o que parece interessar mais ao filósofo da escola de Frankfurt seria a essência universalizante de uma matriz lingüística, uma língua pura de para onde todas as outras seriam sempre projetos inacabados, rumo a ela derivariam todas as outras, a língua de partida e a língua de chegada.

Para Benjamin é necessário escapar à concepção instrumental da linguagem, não se pode traduzir de forma mimética, também não se pode traduzir a essência do texto original, isto se deve ao fato de ambos, a obra original e sua tradução não corresponderem, separadamente, a nenhuma essência, de fato, é apenas possível entender como essência o caráter inalterável, atemporal de um determinado objeto cuja natureza íntima não poderia se perder com o tempo. Para Benjamin, a verdadeira função da tradução residiria antes na sobrevida da obra, as traduções de um texto seriam responsáveis por sua continuidade temporal, por sua renovação histórica. De acordo com Benjamin, a tradução, longe da busca objetiva pela correspondência de um texto original para outra língua, seria, ao contrário, a ferramenta que impediria a cristalização histórica de uma obra nas sucessivas recepções da obra através de suas traduções. Não sendo assim, a tradução, e mesmo a obra de arte original cairia no perigo da ânsia totalizante do pensamento sistemático, incapaz de “ler” um mundo que se fragmentou e cuja temporalidade se tornou muito mais avassaladora. A maturação às quais estão sujeitas as palavras fugiram de qualquer controle centralizante. Não há essência, de acordo com Benjamin, porque a obra original se transforma, ela depende sempre de sua sobrevida, que por sua vez é pura vertigem. Traduzir só é possível considerando a sobrevida. A velha tradução mimética, além de arcaica e obsoleta, também não é a equação desejada entre duas línguas impuras, e o processo evolutivo de uma língua depende sempre de uma outra. Considerando estes fatores, pensa Benjamin, a tradução se torna eficaz. Quando é capaz de ligar a maturação de uma língua estrangeira à sua própria, torna possível a adequação da palavra nova em uma língua de partida. A ênfase do filósofo alemão certamente não recai no potencial tradutório do conteúdo, dos sentidos imanentes de uma obra, mas ao contrário, ambas seriam fragmentos de uma língua original.

No dizer de Benjamin é possível encontrarmos um parentesco entre duas línguas que justifique a tradução de palavras, de frases, de obras inteiras, porque ambas são sempre construtos inacabados, incapazes de dizer aquilo que deveriam dizer. No entanto, a união de ambas sinalizaria por uma terceira via, a complementaridade, a totalidade, no dizer de Benjamin a “língua pura”.

Toda tradução, como toda obra, é sempre provisória. A arte é durável, mas ao mesmo tempo não se pode dizer da tradução, que é sempre vulnerável à mudanças, à passagem do tempo, à obra definitiva. Por outro lado, se uma obra pode sobreviver, sua sobrevida dependerá sempre de processo tradutório “ad infinitum”.  Para Benjamin, arte e conteúdo interagem para o bem de ambas, pois, do mesmo modo que a obra original é sempre mais elevada que o resultado provisório da tradução, por outro lado, paradoxalmente, a permanência da obra depende intrinsecamente de sua tradução.

BORGES E LITERATURA


 

Minha paixão pela literatura começou quando lí "Ficções" de Jorge Luis Borges, foi meu primeiro contato-espanto literário, talvez isto não interesse a ninguem além de mim, mas o que eu realmente gostaria de deixar aqui nesse momento e por alguma razão que ainda desconheço é justamente o registro desse primeiro encontro casual (ou nao),é justamente o que se passou comigo, como sendo algo decididamente especial e único, e talvez isto justifique a menção, nada na vida pode ser mais justificavel que o grande momento de descoberta de sí mesmo, de descoberta de quem é e o que representa sua vida, e tudo isto eu devo a borges, meu pai literario.
A biblioteca pública da minha cidade era um lugar que sempre me atraia, sua arquitetura colonial, de amplas janelas rusticas fechadas a taramelo e portas azuis me fascinavam desde sempre. Um dia, estava meio enjoado de ler sempre as mesmas histórias-em-quadrinhos de super-herois e nada parecia me agradar realmente, até que decidi entrar ali, e nao sei porque, nao precisei de muito tempo pra descobrir, folheando aqueles todos aqueles livros das mais variadas formas, novos e antigos, que estava em casa, como eu saberia depois, para homens como eu, homens de livros, a feliscidade se constituia nisso, em deixar-se perder por toda uma vida na "biblioteca". Nessa primeira biblioteca travei contato com o melhor dos livros de Jorge Luis Borges, as ficciones. Minha primeira impressão nao foi menos que assombro, pois alí constavam mundos imaginarios muito superiores aos dos ingênuos quadrinhos, eram os mundos de "Ukbar Orbic Tertius", eram os personagens históricos que na verdade nem existiam, enfim, era todo um universo mágico se abrindo diante de mim e, por isso, sabia que nao poderia_e nao desejaria nunca_deixar esse universo, onde eu e Borges somos a mesma pessoa, onde somos um mendigo e Shakespeare.

o sorriso de Beatriz


 

A Comédia de Dante pode ser lida em qualquer fase da vida. É um clássico, e como acontece com toda obra da chamada"alta literatura", suas leituras são múltiplas, ou melhor, infinitas, já que em cada momento da vida em que abrimos as paginas de um livro já nao somos os mesmos de antes. O autor do grande classico da literatura italiana dizia que haveria, no mínimo, quatro formas diferentes de leitura de sua Comédia. Entretanto, nao convém agora entrar no tema de suas plurissignificações textuais, o que convém nesse momento, e o que farei, é examinar o que resta da minha primeira leitura da Comédia de Dante, que fiz quando era garoto e que, por se tratar de uma fase da vida onde só podemos ler pelo prazer, pelo hedonismo que a literatura encerra, sim, porque a literatura é uma forma de feliscidade e para essas pessoas, como eu, para os homens de livros, é a única possível e realmente desejada, é a hedonista. E se torna uma vida mais feliz ainda, se durante a infancia, temos a chance de ler A Divina Comédia.
Com auxílio do poeta Virgílio, Dante, ele mesmo narrador em primeira pessoa e personagem principal de seu poema, atravessa os circulos do Inferno, do Purgatório e se atreve a pisar o Paraíso. Se lermos suas paginas, jamais esqueceremos essa travessia. Mas por que Dante teria feito isso? Por que teria se arriscado a tamanho intento? E tao assombroso? A conjectura que melhor me agrada é a mais inferior do ponto de vista crítico, porque ainda é a de minha primeira leitura, a ingênua imaginação de uma criança que se depara com um texto cuja grandiosidade ignora e, por isso mesmo, fica livre para a melhor de todas as viagens _ para a criança que fui um dia, Dante atravessou a noite dos mortos e viu o revoada de anjos celestiais na manhã seguinte porque amava a aventura, Dante foi meu primeiro herói. Trata-se de uma possível leitura somente se voce for uma criança e está longe da real potencialidade da obra, se insistir nesse tipo de ponto de vista, talvez voce tenha serios problemas. digo isso, porque para um adulto é razoavelmente fácil notar que o núcleo primitivo da obra nao é outro senão Beatriz, Dante embrenha-se nos confins do Inferno e do Purgatório por amor, o verdadeiro tema é o amor grandioso por Beatriz. Sabemos também, que para Dante, Beatriz fora tudo, embora para ela, Dante provavelmente tenha representado muito pouco ou talvez nada. Em Nuestra Vita, uma especie de memórias do autor, Dante comenta que só a viu de perto duas ocasiões, e que, em uma delas, seu cumprimento fora recusado. Podemos imaginar o resultado devastador representado nesse amargo desdem da mulher que ama e por quem fará o que nenhum outro homem jamais fez ou fará por mulher nenhuma. É impossivel deixar de imaginar que a verdadeira motivação de Dante para a escritura de sua obra prima seja tão e unicamente o fato de que nao pode tê-la jamais, nem em vida e nem na morte. Beatriz morrera aos vinte e quatro anos e era casada com um certo Barti, se nao me falha a memória, e pior, mesmo no grande sonho que é a comedia, Beatriz continua inacessível. Dante é, ao menos pra mim, a personagem de literatura mais amargurada de todas, nem mesmo o Rei Mcbeth, com suas mãos imundas de sangue é tão completamente amargurado e porque nao dizer, _humano.
Nos poucos momentos que pode passar ao seu lado no Paraíso, continua sendo vítima do desdém e continua humilhado por Beatriz, sempre severa e fria. Para ele, isso não importa mais, conseguiu o que queria, recuperá-la, mesmo que fosse em sonho e talvez, e nisto, minha primeira leitura nao tenha sido tão equivocada, porque nao há aventura maior do que amar e não ser amado.

porque vejo agonia e morte no futuro dos quadrinhos





 Não seria demasiado fantasioso ou dramático afirmar que os quadrinhos estão caminhando para um rápido processo de extinção? Acredito que a resposta só pode ser não, não absolutamente. Há que se considerar alguns fatores que, mesmo parecendo excludentes quando colocados de forma simplista e desconexa, ou que não contribuem muito fora do contexto amplo que a questão exige, mas que, reunidos sob um mesmo prisma, torna-se bastante útil na análise geral do problema. Falo da sobrevivência dos quadrinhos como indústria, e é claro, falo ainda, e de forma mais preocupada, de como faremos, nós, talvez os últimos dos autores de quadrinhos, para mantermos esse gênero como uma forma de arte honesta e original, seja qual for o tempo que ainda dure como tal. É o que, convenhamos, torna a problemática ainda mais delicada e que, portanto, merece ser focalizada de uma forma mais detalhada e atenta. Se ainda não desistiram de ler esse ensaio, penso que concordam comigo.

Há algum tempo, por volta do início da minha adolescência _ hoje tenho quase 33 anos _ os quadrinhos perderam seu posto de leitura para crianças. Isto teve um lado positivo e outro negativo _ como tudo na vida, ao que parece. O lado positivo a que me refiro é evidente a qualquer leitor do gênero, a saber, o fato de que a partir dos anos oitenta, as histórias – em – quadrinhos perderam de vez a antiga aura ingênua a qual ficou quase indelevelmente anteriormente atrelada desde seu surgimento. Mas as coisas mudaram drasticamente na segunda metade dos anos oitenta do século passado, surgia uma nova geração de talentosos autores, como Neil Gaiman, Alan Moore e Frank Miller, para ficar entre os mais conhecidos e suas propostas não erma menos que arrasadoras para o mercado. Percebeu-se, quiçá pela primeira vez na história desta indústria, que o gênero carecia realmente de renovação, as possibilidades que os quadrinhos permitiam haviam ainda permanecido quase intocadas ou mal exploradas, era irremediável a busca por novos rumos e valores. Não seria exagero dizer que tais autores, jovens e donos de um real talento ainda não vistos no gênero se voltaram para os quadrinhos como um último “Eldorado”, sabiam qual era o erro cometido até ali e pretendiam _ e imagino com bastante consciência do fato _ de que continuar no erro, que amiúde afetava desde toda a parte criativa do processo indo chegar até mesmo nos leitores, seria um suicídio descabido. Quase todos atrofiados pelo longo tempo de inércia, a maioria dos antigos quadrinhistas _ a maioria talentosos, por sinal _ não se sentiam capazes ou não desejam que o status quo dos quadrinhos sofresse qualquer tipo de alteração. Para muitos dentro do meio, os “comics” eram apenas um produto de distração para leitores semi-analfabetos ou crianças em fase de escolarização e, portanto, de escasso valor estético. Claro, isso era realmente desalentador. Mas esses novos valores buscavam também atingir o leitor maduro, intelectualizado, aquele que não lia quadrinhos ou os havia abandonado, e este fator foi preponderante para aproximar os quadrinhos das outras artes, especialmente às artes plásticas e a literatura, suas parentes mais próximas, suponho. Pela primeira vez em sua história, as personagens de quadrinhos deixavam de ser meras caricaturas e que antes não passavam de personagens planos assumiam características muito mais próximas do tratamento dado à sofisticadíssima caracterização de personagens na literatura. Desse modo, as personagens agora se aproximavam sobremaneira de seus leitores; a arte das ilustrações, por sua vez, nunca fora tão explorada a um ponto tão extremo e o gênero, como disse antes, não tardou a alcançar o patamar de leitura adulta, merecidamente, aliás. Mas, nem tudo correu como planejado, com a temática e olhos voltados para o publico maduro, a antiga ingenuidade dos quadrinhos, e que tanto cativaram crianças e adolescentes de outras gerações agora, estranhamente, parecia perder-se no caminho, com isso, as histórias – em – quadrinhos, melancolicamente, se tornaram leitura apenas de adultos, até mesmo as revistas de super-heróis se distanciaram da antiga ingenuidade, lembro, incrédulo, a primeira vez que li a maravilhosa “Orquídea Negra”, de Neil Gaiman e Dave Mckean, onde um vilão, sem roupa colante, e sim de terno e gravata, prometia a heroína não amarrá-la e deixá-la para morrer trancada em algum esconderijo no sub-solo, porque ele sabia como aquilo terminava no passado, ele sabia que ela escaparia e sabia porque este era o expediente comum destas histórias. Por isso a minha surpresa quando vi a arma apontada pra sua cabeça enquanto no painel seguinte, os miolos estourados criavam um efeito belíssimo de cores, e bem no início da história. É nesse ponto, que imagino residir o ponto nevrálgico da falência dos quadrinhos como indústria. Hoje em dia não se vêem mais adolescentes infernizando a vida de simpáticos ou antipáticos jornaleiros enquanto esperam a chegada do próximo “Superaventuras Marvel”, a molecada não lê mais quadrinhos, e isso significa, partindo de uma linha de pensamento bastante evidente por si mesma, que cometeu-se um erro nesse caso, um equívoco mal avaliado alguns anos atrás , mas que vem a tona nesse momento. Agora que temos na noção do problema, creio que prudente indicar então, as linhas tortuosas no futuro negro dos quadrinhos e que amiúde, se mostram bastante variadas. Acredito que o meu caso pode ser exemplar como forma de ilustrar a questão. Lembro que, duas décadas atrás,quando ainda vivia numa minúscula cidade do interior de Goiás, cujas poucos atrativos para uma criança com um gosto imenso pela vagabundagem consistiam em jogar futebol na rua _ que eram quase todas de terra e que por isto, facilitava sobremaneira nosso esporte _ e nadar nos córregos que cortavam a cidade em todas as direções, brigar com os outros moleques, escalar penhascos, serras, sonhar durante horas com a “menina ruiva” e etc., Nesse universo bastante reduzido, minha mãe sempre se preocupou com a formação de seus dois filhos, eu, claramente o mais introspectivo e sonhador deles, só precisava de um pequeno, mas, fundamental empurrãozinho rumo ao mundo secreto da palavra escrita e, assim, ser totalmente e definitivamente inoculado pelo bichinho da leitura. E isto já havia acontecido antes, antes de conhecer os quadrinhos, havia lido obcecadamente um exemplar de “A Divina Comédia”, de Dante, li a obra durante anos sem entender muito, mas me divertindo como um louco, principalmente com as cenas de torturas no Inferno. Lembro-me que na época, fiquei tão seduzido por essa leitura que não tardei a desenhar os círculos do Inferno, o Monte Purgatório, comecei a desenhar minhas professoras sendo torturadas no lugar dos inimigos de Dante, hehehehe, infelizmente não consegui guardar nenhum desses desenhos, mas não sei o por que, depois disso passei longos anos distante da Literatura. Minha primeira paixão viria, no entanto, logo em seguida, e o mundo dos quadrinhos me fisgaria de forma arrebatadora. Aconteceu quando, após sua primeira semana de aula como estudante de direito, minha mãe presenteou-me com as edições número 12 e 21, da revista dos “Superamigos” e “Super-Homem”, respectivamente. Pronto, estava inoculado e obcecado, não apenas por quadrinhos, mas por todo o universo da leitura, e o que é melhor, para todo o sempre amém. Mas, voltemos à questão principal porque dela não devemos nos distanciar muito. O que tem acontecido ultimamente, por que as crianças não lêem mais quadrinhos? Por que, afinal, não encontramos mais garotos ávidos pela chegada da próxima edição do Homem-aranha? Creio que está neste ponto crucial o verdadeiro caminho para se tentar responder a questão da falência dos quadrinhos como indústria de entretenimento de massa. Não estamos mais formando novas gerações de leitores de quadrinhos, talvez a minha geração, na casa dos trinta anos seja a ultimares, é bem provável que isto venha a acontecer. A pergunta que gostaria de ver respondida até o final deste ensaio é, basicamente: por que negligenciamos a formação das crianças como leitoras? Se eu estiver certo, e creio que esteja, como faremos para reverter este quadro? Haverá tempo pra isto? Possivelmente não, as crianças não querem mais saber de quadrinhos, a Internet exerce, a meu ver, um fascínio muito maior que paginas coloridas com textos em volta Elas não precisam mais desse tipo de coisa, quadrinhistas pertencerão em breve, a coisa do passado, uma profissão do passado.  Nós, logo seremos então apenas  passado. A minha tendência latina é de ser sempre muito pessimista e melodramático, mas talvez neste caso, não esteja tão distante da verdade. Mas também, creio que não precisava ter sido assim, podíamos ter tido mais cuidado com o papel das histórias – em quadrinhos na formação de leitores, afinal, esse gênero serviu muito bem a vários leitores célebres do século vinte, nem é preciso mencionar nomes, sabemos a relevância dos quadrinhos no século vinte. Os quadrinhos, como forma de arte, nasceram e provavelmente vai morrer em pouco mais de cem anos, e isto é cruel, mas o que se há de fazer?

Outra óbvia ameaça à indústria são os popularíssimos “downloads”. Não há como negar, os quadrinhos estão migrando rapidamente para o universo da Internet. As novas gerações já sentem que não é necessário pagar por coisas como musicas, filmes e é claro, quadrinhos. É preciso pensar no tema com bastante cautela, afinal, trata-se de um caminho também inexplorado.

Do ponto de vista estético, ou seja, vendo as histórias – em – quadrinhos mais como uma forma de expressão artística, creio que os quadrinhos não estão ameaçados. Ao contrário, acredito que, enfim livre do consumo em massa, talvez só restem os artistas que estão realmente interessados em criar a partir de uma mentalidade bastante diferente do que se vê hoje. Longe de palavras de ordem como “mercado”, “distribuição”, etc., teremos finalmente o espaço que precisamos para uma verdadeira transformação que o gênero ainda não conheceu. Teremos então, não apenas um campo fértil e propicio para todo tipo de experiências estritamente artísticas e verdadeiras. 

A minha sugestão, como um balanço geral, é que continuemos tentando produzir um material adulto e de qualidade cada vez melhor, mesmo que não dê em nada no final, isto me faz pensar nas aulas de flauta que Sócrates tomou na prisão, horas antes de sua morte por ingestão de cicuta, imagino que estejamos todos condenados, mas é preciso continuar tendo aulas de flauta porque é belo, porque a vida neste mundo não significa muito sem a beleza e porque não há nada mais sensato a fazer afinal.  E é preciso falar as crianças, mesmo que elas não venham mais a nos ouvir, mesmo que nossas histórias não as toquem como nos tocavam no passado, mesmo que estejamos condenados como contadores de histórias precisamos não esmorecer e continuar como se nada estivesse acontecendo de errado ao nosso redor. Porque somos sonhadores incorrigíveis.

 

NORIVAL BOTTOS