sábado, 23 de abril de 2016

Lendo Maurice Blanchot não é raro que se chegue a algumas conclusões sobre o papel do receptor do objeto de arte. Quanto ao leitor do texto literário _ impossível descrever o conforto de chamá-lo idiossincraticamente assim _ este leitor é, no entanto, aquele que se entrega e encarna (assumindo a carnatura), por vontade própria, à solidão daquilo que é indizível, que é inaudito e que faz a transfiguração, a partir da linguagem, num jogo entrecruzado infindo. Cabe a esse leitor, que é nosso contemporâneo, desprender-se da forma que ele domina como ninguém, pois os signos de arte não se efetivam na assumpção, mas na delegação, como disse certa vez, Wendel Santos.
Mas todo aquele que se predispõe ao objeto de arte sabe, de antemão, que não há nada além da solidão dos signos que se reverberam em fluxos, em linhas de fuga que não começam nem terminam em lugar nenhum, são rizomáticos os semi-signos que se reagrupam e debandam sem nenhuma direção aparente. Os semi-signos, por inapreensíveis, não nos dão nada além de uma experiência que acaba por permanecer fugaz e ao mesmo tempo reveladora, a saber, o papel da arte e do fruidor da arte como potencia criativa e não apenas submissão ao objeto que o auratiza, é a tarefa de se entregar por completo à união da alma á forma do poema. Na literatura, isto serve não apenas para o poema, mas principalmente para a narrativa mais pretensamente realista.





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