quarta-feira, 20 de abril de 2016

As esquizos andanças do mestre José Amaro no romance Fogo Morto de José Lins do Rêgo.

No romance Fogo Morto, a noite é a máquina fonte, a partir dela é que o mestre José Amaro responde com seus fluxos de máquina-órgão, percorrendo uma cartografia antes invisível, repleto de Fluxos e phylum maquínicos, pontos de fuga para as noites de lua cheia. O objetivo deste artigo é mapear o passeio do esquizofrênico colonizado como sendo o oposto do neurótico freudiano-urbano-europeu, esperando que o dia nasça para que ele possa, enfim, correr para o divã. Como aporte teórico, utilizaremos a teoria de Gilles Deleuze e Félix Guattari sobre as noções de esquizofrenia como novas territorialidades que se estendem para fora das noções binárias freudianas tradicionais. Assim como o horror físico é noturno, o passeio esquizofrênico também o é. As noites ao ar livre do mestre José Amaro o ligam a complexos cipoais de acoplamentos com outras máquinas, tudo muito diferente da claustrofobia de sua tapera, subsumindo as figuras turvas de sua filha e sua mulher, ela, uma pastorinha-mãe-mulher, que o força a situar-se socialmente, a outra, uma filha cujo assujeitamento ele não ignora, pois é a outra face de seu próprio horror, é a parte dele que se perde em volúpias e angústias jamais realizadas.

Para Félix Guattari:

Optei por um inconsciente que superpõe múltiplos estratos de subjetivações, estratos heterogêneos, de extensão e de consistência maiores ou menores. Inconsciente, então, mais “esquizo”, liberado dos grilhões familiaristas, mais voltados para a práxis atuais do que para fixações e regressões em relação ao passado. Inconsciente de Fluxo e de máquinas abstratas, mais do inconsciente de estrutura e de linguagem. (GUATTARI, 2012, p. 23)


Caminhando descalço à noite, ao contrário, ele está percorrendo os canaviais, sob um luar intenso, quem pode imaginar a imensidão de deuses esquecidos que caminham com ele; sem família, porém, com a natureza, uma natureza que funciona como uma imensidão de máquinas que se acoplam com as de seu corpo. Seu corpo pode finalmente exalar clorofila abundante, não a podridão que esse mesmo corpo exala enquanto trabalha martelando sem parar solas de sapato durante o dia. Relações de fotossíntese que ele se lembrará, mas tarde, em sua rede, com o corpo exausto. Acreditamos que Mestre José Amaro é um personagem que vive a natureza como natureza, nada os diferencia, não há dualidade homem-natureza, o que ele sabe _ e talvez seja seu único saber verdadeiro _ é que deve fugir em noites de lua cheia, acoplar sua máquina às outras máquinas, tão produtoras e desejantes como as dele, em suma, como tentamos defender aqui, as máquinas esquizofrênicas de Deleuze-Guattari de fato atuam em romances como Fogo Morto, sem exterior ou interior. Este ponto está bem expresso na seguinte passagem:

... E como se tivesse tirado um peso de chumbo dos ombros o mestre José Amaro saiu para ver a noite, para sentir-se só na noite que era de lua cheia. A estrada branqueada pelo luar cheirava a cajá maduro. As moitas de cabreiras tinham ramas de algodão pelos galhos espinhentos. (...) Ali ele se sentia numa intimidade fácil com as coisas. (...) Viu os partidos de cana gemendo na ventania, o mar de cana madura com os pendões floridos. (LINS DO RÊGO, 2008, p. 147)


Quanto à mulher e a filha de José Amaro, o que tentaremos analisar é o processo de assujeitamento que as práticas de biopoderes as submetem a rigorosas formas de conduta e de silencio. São personagens entregues à sujeição, como dirá Foucault em sua análise das práticas de biopoder, tais processos de subjetivação são responsáveis por agenciamentos corporais de dominação dos corpos e fazem deles parte obrigatoriamente produtiva da cadeia de trabalho, com exceção da filha, incapacitada de exercer seu papel na cadeia de trabalho feminino, ou seja, de casar e de procriar, o que a leva ao tipo de demência que é o contrário do saber da desrazão do mestre José Amaro ou do coronel Vitorino. O que naufraga junto com a filha do mestre José Amaro, é a própria debilidade da sociedade excludente que o condena, pode-se dizer que o que a submete à demência são as práticas de subjetivação dos indivíduos da superfície, os sãos. Trata-se de um ato de revolta contra a razão, a febre do de-fora é o último ato desmedido contra todas as formas de controle disciplinares de si.
... A desvalorização do sentido da vida provoca o esfacelamento da imagem do eu: suas representações tornam-se confusas, contraditórias. Face a essas convulsões, a melhor atitude consiste em visar ao trabalho de cartografia e de modelização psicológica em uma relação dialética com os interessados, os indivíduos e os grupos concernidos, quer dizer, indo no sentido de uma cogestão da produção de subjetividade... Guattari, p.22

O conjunto desses pensamentos, a nosso ver, está arquitetado na noção de transgressão. Juntos, a desleitura do binômio Marx - Freud, confirmam os estragos causados neste último século, de pulsão, angústia, mass-media, elementos que não são apenas substituídos, mas, sobretudo, superados por conceitos como máquinas desejantes de subjetivação, rizoma, fluxos esquizo, enfim, uma nova forma de conceber o problema da vida em dimensões que ultrapassam o linguístico e os valores semióticos.
Há certos tipos de condicionamento repressivo das maquinárias desejantes que perfazem o fluxo de loucura que são reprimidos pela esquizofrenia capitalista, nesses loucos, a loucura se esgota em si mesma sem que seja alcançada a potência criadora que apenas o gênio da desrazão é capaz de atingir. Isto acontece nas mais diferentes condições rizomáticas, como a máquina-literatura, a máquina-livro ou outras inúmeras formas de funcionamento da maquinaria desejante. No louco, quando o fluxo é cortado, é toda a cartografia genial e emotiva que se esgota antes que alcance seu ápice.
O louco André, castigado, machucado por todos que estão mergulhados na racionalidade esquizofrênica-capitalista do mundo, essa máquina-desejante que é André Louco não sabe como inserir-se nesse mundo, então, ele não consegue produzir para esse mundo.
André Louco, portanto, é aquele tipo de louco típico gerado pelo horror capitalista, que não consegue produzir o fluxo e a mistura do saber insondável da loucura, é separado do mundo, essa visão faz com que André Louco seja um dos melhores exemplos do que o horror físico é capaz em sociedades colonizadas, a ética e o policiamento de si atingem André Louco naquilo que se pode chamar de o tratamento exemplar da loucura nessas sociedades. É difícil encontrar em toda a literatura mundial um personagem que tenha vida mais duramente castigada fisicamente.
Para Deleuze, a relação loucura e a genialidade são muito estreitas; o louco é aquele que perdeu parte de sua estrutura num certo aspecto da sua vida psíquica, mas o restante não foi apenas conservado, porém, incrementado. A teoria de Deleuze e Guattari se afirma na ideia de que é gênio porque é louco, a loucura é uma visão peculiar do mundo, uma sensibilidade diferenciada, um modo de pensar os próprios sentidos e faz com que os loucos vivam num mundo que nós desconhecemos por completo, com desconhecidas combinações, com desconhecidas produções. E há também o fato de que certas produções de gênio de queimam, se deterioram e se perdem antes de sua conclusão.
Para F. G. e G. D. as categorias psiquiátricas não estão separadas da vida histórica e social, eles nomeiam psiquiatricamente certos acontecimentos históricos.
A real alteridade não é um mistério, mas um fenômeno que produz tanto sentidos e acontecimentos quanto deveres materiais.
Artenal criou em um de seus poemas o conceito de corpo sem-ógãos, esta fórmula para Deleuze e Guattari dá conta perfeitamente de um corpo que todos nós temos, dentro do nosso corpo, pluripotencial, que é capaz de gerar os eventos mais extraordinários e mais insólitos, tudo depende da montagem, dos versos, há proliferações que destroem ou constroem, mas são parte de um corpo sem órgãos, porque não obedecem ao restante de outras proliferações e combinações, há todo uma mapa organizado,




Nenhum comentário:

Postar um comentário