O
VIRGÍLIO DE DANTE NA “DIVINA COMÉDIA”, FIGURAÇÃO E DESLEITURA
A
desleitura como modo de influencia dentro da literatura é
desafiadora e original, a teoria de Harold Bloom vai contra a
corrente que vê na noção de influencia uma questão benigna, cujo
processo de assimilação se daria de forma desejável para o poeta
“tardio”. Utilizaremos o chamado “textualismo forte”, ou
“angústia da influência” para investigar o problema uma
possível relação entre dois poetas antecessores a Dante Alighieri:
Virgílio e Lucrécio, além de buscarmos a maneira como Dante
promove sua desleitura dos autores citados, criando desse modo, uma
inversão dos valores proclamados por eles. Vejamos inicialmente a
definição de Bloom para influência:
A angústia da influencia resulta
de um complexo ato
forte de má leitura, uma interpretação criativa que eu chamo de
“apropriação poética”. O que os escritores podem sentir como
angústia, e o que suas obras são obrigadas a manifestar, são as
conseqüências
da apropriação poética, mais que a causa.
A forte má leitura vem primeiro; tem de haver um profundo ato de
leitura que é uma espécie de paixão por uma obra literária. É
provável que essa má leitura seja idiossincrática, e quase certo
que seja ambivalente, embora a ambivalência possa estar velada.
(...) Wallace Stevens, hostil a todas as sugestões de que havia
alguma coisa às suas leituras de poetas precursores, não nos teria
deixado nada de valor não fosse por Walt Whitman, a quem eles às
vezes menosprezava, quase nunca imitou abertamente, mas interiormente
ressuscitou. (BLOOM, 2002, p.23-24)
Harold
Bloom relaciona os tropos com o que chama de razões revisionárias,
termos tomados emprestado de fontes judaicas e clássicas e, ao mesmo
tempo, revisões de usos contemporâneos. Rumando na direção
contrária àqueles que buscam na noção de influência como
característica benigna ou força inspiradora para os escritores em
formação, Harold Bloom prefere refletir sobre a relação
conflituosa entre o autor efebo e o seu precursor, ou seja, entre o
poeta da tardividade e o poeta precursor dentro de uma série de
barreiras quase intransponíveis, uma delas é a própria aspiração
de originalidade. A influência, como ameaça ao poeta da que veio
depois se torna uma releitura defensiva contra o poeta forte, uma
ação defensiva que depende do desvio corretivo da obra anterior,
trata-se de uma relação conflituosa e angustiante onde o autor que
ainda está em formação deve ler errado o texto antecessor.
Destarte,
Bloom nos oferece seis princípios corretivos, ou as “razões
revisionárias” dos poetas fortes, onde, juntas, formam a fundação
para o manifesto bloomiano para uma nova crítica antitética.
Interessa-nos, no entanto, apenas duas das seis razões
revisionárias, destacaremos o movimento chamado de Clinamen,
cujo conceito básico é a completude e antítese. O autor tardio
antiteticamente “completa” seu antecessor. Esse desvio se dá
quanto o poeta tardio procura manter os termos importantes do
precursor, mas cujos sentidos ganham uma nova leitura, como se o
autor precursor tivesse falhado em seguir até o fim. Segue-se abaixo
um breve resumo das seis razões revisionárias de Bloom:
Clinamen,
termo
utilizado por Lucrécio para descrever o movimento dos átomos, é o
primeiro estágio, a desleitura propriamente dita, o desvio de um
poeta sobre um precursor, a base para as outras formas de
deslocamento. A figura literária relacionada com ele é a Ironia,
dizer algo, mas com um sentido diferente. O primeiro passo é, pois,
um desvio daquilo que foi apresentado. O autor tardio antiteticamente
“completa” seu antecessor. Esse desvio se dá quanto o poeta
tardio procura manter os termos importantes do precursor, mas cujos
sentidos ganham uma nova leitura, como se o autor precursor tivesse
falhado em seguir até o fim.
Tessera,
palavra ancestral que Bloom toma de Lacan, é a complementação do
precursor na obra do poeta novo. Não basta apenas desviar-se da
proposta retórica do precursor, deve-se acrescentar algo que este
não pensou. A figura relacionada é a sinédoque, a parte pelo todo.
Como se o poeta efebo mostrasse que algum termo do precursor é mais
amplo do que ele havia imaginado.
Kenosis
é o esvaziamento do poeta, um mecanismo de ruptura semelhante às
compulsões de repetição estudadas na psicanálise. O poeta tardio
isola-se de tudo para afastar a influência do precursor, do
contrário sentiria a necessidade de repetir o modelo herdado. O
tropo relacionado é a metonímia, a troca do continente pelo
conteúdo. Como se tomasse a forma do precursor, mas não obedecesse
a seu significado, seu sentido.
Demonização
(Daemonization),
o quarto movimento, é um deslocamento em forma de contra sublime, um
sublime desviante ou até mesmo contrário ao que o precursor propôs.
Seu termo literário é a hipérbole, um exagero desmedido, pois
amplia a figura anterior, mas não como personalidade. É um
movimento de individuação do poeta efebo, “desindividualizando”
o precursor, transformando-o em desejo, em um objeto de fruição
para o efebo.
Askesis
é o truncamento das habilidades do poeta novo, uma espécie de
ascese pessoal que permite-lhe interpretar o poeta anterior.
Limitando a própria personalidade a ponto de poder trocar de lugar
com seu precursor. Sua figura retórica é a metáfora, a troca de
significado por uma relação analógica.
Apophrades
é o último estágio e é traduzido como o retorno dos mortos. A
apropriação final do poeta anterior pelo posterior, o poeta
precursor volta como se fosse um poeta efebo. É a figura literária
mais complexa, a metalepse, ou transunção, onde o antecedente pode
ser tomado pelo conseqüente e vice-versa. O poeta alcançaria a
ilusão máxima fazendo-se parecer anterior ao poeta que o
influenciou.
Harold
Bloom argumenta que os poetas desde Homero sempre sofreram com a
angústia da influencia da tradição, para alcançar a “grandeza”
há barreiras, sendo uma delas a própria aspiração de
originalidade poética. Para Bloom, contra a ameaça da força do
poeta predecessor, poetas tardios aprendem a se proteger promovendo a
desleitura dos poetas predecessores, em outras palavras, “lendo
errado” o poeta forte.
Já
o conceito de figura
de Erich Auerbach demarca a diferença entre figura
e alegoria, criando, desse modo, um claro contraste entre alegoria,
no qual figura
é expressa como algo que diz uma coisa nas palavras e outra no
sentido possível, e figura, no qual ambos os termos, a figura
e o figurado são representações reais a partir de modelos
plásticos.
Figura implica, portanto, realismo. Para Auerbach, uma das maiores
diferenças entre alegoria e figura é o fato de que a alegoria
movimenta horizontalmente em termos históricos, enquanto que a
figura
atua
de modo vertical na história, conectando, desse modo, Paraíso e
Terra, o sagrado e o secular, para Auerbach:
A interpretação figural
estabelece uma conexão entre dois acontecimentos ou duas pessoas, em
que o primeiro significa não apenas a si mesmo mas também ao
segundo, enquanto o segundo abrange ou preenche o primeiro. Os dois
pólos da figura estão separados no tempo, mas ambos, sendo
acontecimentos ou figuras reais, estão dentro do tempo, dentro da
corrente da vida histórica. (AUERBACH, 1997, p.46)
Alegoria
pode ser entendida de modo horizontal porque lida com uma área
temporal e causal, ao passo que a figura
é
vertical, ou seja, radicalmente diferente. Além disso, para
Auerbach, suas origens dão bastante diferentes, o método utilizado
como figurativo remonta às origens do cristianismo, enquanto a
alegoria tem suas origens em fontes pagãs. Auerbach considera figura
como
um conceito mais amplo do que a alegoria, pois nos permite pensar,
por exemplo, a relação entre o Velho Testamento e o Novo
Testamento, se assenta na ideia de que o primeiro prefigura o seu
sucessor, o que vem depois na história pode ser entendido como a
verdadeira realização profética. Portanto,
figura
se torna um conjunto de esquemas transcendentais.
É
importante notar como Auerbach destaca o conceito de figura em
Lucrécio:
Lucrécio usa figura
no sentido filosófico
grego, mas de modo extremamente individual, livre e significativo.
(...) A importante transição da forma para sua imitação, do
modelo para a cópia, pode ser mais bem observada no trecho que se
refere à semelhança das crianças com seus pais, à mistura das
sementes e à hereditariedade; às crianças que são utriesque
figurae [ que têm a
figura de um e outro], parecendo-se com o pai e a mãe,
freqüentemente espelhando proavorum
figuras [a fisionomia
dos ancestrais], e assim por diante. (...) Uma variante especial do
significado “cópia” ocorre na doutrina de Lucrécio sobre as
estruturas que se desgarram das coisas como películas (membranas) e
flutuam no ar, sua doutrina democritiana das “imagens de filme”
(Diels), ou eidola,
que ele toma em sentido materialista. A essas chama simulacra,
imagines, effigies e,
às vezes, figurae;
por conseqüência, é em Lucrécio que encontramos pela primeira vez
a palavra empregada no sentido de “visão de sonho”, “imagem da
fantasia”, “fantasma”. (AUERBACH, 1997, p.17)
O
Epicurismo é outro conceito importante em nossa análise. Trata-se
de uma escola fundada por Epícuro
de Samos
no ano 306 a.C em Atenas. Suas características, que tem em comum com
as demais correntes filosóficas do período alexandrino a
preocupação de subordinar a investigação filosófica à exigência
de garantir a tranquilidade do espírito ao homem, são as seguintes,
de acordo com Abbagagnano:
1 – sensacionismo,
princípio segundo o
qual a sensação é o critério da verdade e do bem. (Este último,
identificado, portanto, com o prazer).
2 – atomismo,
formação e transformação das coisas por meio da união e da
separação dos átomos, e o nascimento das sensações como ação
dos estratos de átomos provenientes das coisas sobre os átomos da
alma.
3 – semiateísmo,
acreditava-se na existência dos deuses, que, no entanto, não
desempenham papel nenhum na formação e no governo do mundo.
(ABBAGAGNANO,
2012, p, 788)
Clinamen:
A Desleitura de Virgílio pelo Agon de Dante.
A
“Eneida” representa um Virgílio pouco à vontade em sua época.
Seu texto é permeado pelo pensamento epicurista e encontra seu ápice
quando Lucrécio ecoa em Virgílio. A necessidade de seguir os
padrões adotados pela tradição grega clássica talvez tenha sido
um conflito bastante difícil de lidar se considerarmos que para o
poeta mantuano os nomes de Lucrécio e Epícuro representavam bem
mais do que Homero. É certo que Dante não lera Lucrécio, este
detalhe histórico é importante para considerarmos os detalhes
estético-literários da escolha de Virgílio como seu precursor
adequado e também seu guia nas duas partes mais vibrantes de A
Divina Comédia.
O
que se pretende defender neste trabalho é a intensidade das razões
revisionárias de Dante sobre a tradição e, mais precisamente,
sobre a intensidade de Virgílio no texto de Dante Alighieri,
acreditamos que buscar este caminho pode nos levar às motivações
estéticas que fizeram com que o poeta florentino combatesse
tenazmente o poeta precursor, transformando-o numa espécie de figura
proto-cristã, na verdade, um álibi para transformar a “Eneida”
numa figura _ no sentido de Erich Auerbach _ de “A Divina Comédia”,
esta sim, para Dante, a obra máxima na representação da nação
italiana.
Transformar
Virgílio numa figura a ser preenchida pela figura de Dante, o poeta
posterior, significa o primeiro movimento rumo à elaboração do
tema da obra. A ironia se apresenta de modo crucial em Dante, pois
lhe oferece a oportunidade de seguir Virgílio durante grande parte
do desenrolar da Comédia, e ironicamente seguindo também os
preceitos cristãos, mas abandonando a ambos em nome da obra máxima.
Clínamen é ironia do desvio e na “Comédia”, especialmente,
marca o paroxismo danteano e que tem menos a ver com a crença
pessoal de Dante no cristianismo ou em Virgílio, do que uma forte
desleitura em nome do fortalecimento da obra de arte potencialmente
agônica, marca que em Dante viria ser sua expressão estética
absoluta.
O
poeta florentino da Idade Média, desconhecendo a verdadeira
genealogia poética de seu mestre e obstinado a transformar o
lucreciano Virgílio em seu epígono, buscou, como pretendemos
defender mais adiante, confrontar o peso de sua obra máxima contra o
próprio peso da tradição através da ironia figural. É o que
Harold Bloom defende no trecho abaixo:
O Virgílio de Dante pouco tem a
ver com o poeta romano, que não ansiava pela dispensação cristã.
Virgílio, profundamente influenciado por Lucrécio, tinha uma visão
epicurista da prevalência da dor e do sofrimento na existência, e
não contemplava qualquer transcendência futura. Em vez de guia de
Dante, o Virgílio histórico estaria no Inferno, dividindo um mesmo
túmulo com Farinata, ou correndo sobre as areais escaldantes com os
sodomitas. A opção de Dante por um tal guia foi de natureza
estética, sem qualquer relação com a alegoria teológica.
(BLOOM, 2003, p. 102)
Do
ponto de vista estético que Bloom defende, é preciso pensar que no
caso de Dante seguir a tradição significava aliar sua Comédia aos
moldes aristotélicos que definiram a noção de epopéia até mesmo
depois de Dante, mas apesar de louvar Aristóteles, não é isso que
o poeta florentino faz com sua grande obra, o que ele promove é uma
subversão dos preceitos. E agindo assim, Dante tenta se aproveitar
da premissa equivocada de que “A Divina Comédia” é a sua versão
da “Eneida”. O fato é que Dante herda de Virgílio mais do que
está disposto a admitir, ou seja, é a arte lucreciana-epicurista em
Virgílio que Dante de modo indireto absorve, subvertendo o
epicurismo latente na “Eneida”, como por exemplo, subvertendo o
desprezo de Virgílio pela transcendência ou pela morte e tudo isso
envolvido numa possível falsa crença pela imortalidade da alma
cristã. Nesse sentido, Bloom, (2004, p.300) afirma: “Tudo o que
Virgílio encontra é sofrimento. Enéias é o herói do poema, mas
não de Virgílio, divergência que torna o épico ainda mais
interessante, pois inserir o herói errado no poema certo é
antecipar a arte de Shakespeare”.
Deste
modo, a obra de Dante pode ser lida como uma profunda crença no
desvelamento da verdade do ser pela arte, uma meta audaciosa e
adequada a transcendência espiritual e bastante adequado para
camuflar a supremacia de sua obra perante a imortalidade da alma.
Note-se, por exemplo, no canto IV, como Dante ironicamente interpreta
o tom pálido de Virgílio logo após despertar à beira de um
abismo:
Era escuro, profundo e nebuloso,
e embora eu aplicasse a vista a
fundo,
nada me dava a ver, por
penumbroso.
“Aqui descemos para o cego
mundo”,
disse o poeta todo em palidez,
“eu vou primeiro e tu serás
segundo”.
E eu que o vi pálido, por minha
vez:
“Como hei de ir, se em ti vejo
presente
o medo, em ti que ensinas
altivez”.
E disse-me ele: “A angústia
dessas gentes
que estão aqui é que ao meu
rosto atinge,
piedade que em temor tu
representes”.
(DANTE,
2010, p.82-83)
Dante
transforma em conceitos e imagens praticamente todos os personagens
históricos em sua obra, é provável que tenha reinventado Beatriz
com propósitos muito menos teológicos que seu método retórico
parece confirmar. De forma análoga, reinventa também Virgílio, mas
nesse caso, os vestígios parecem mais raros e sua afronta parece bem
menos evidente. Este tipo de ironia desviante, que Lucrécio chamava
de Clínamen, como lembra Bloom, é a mesma forma de ironia socrática
que Platão reavivará e que está presente no Dante maduro da
“Divina Comédia”, ela representa o modo como o poeta florentino
sugere que está disposto a aceitar sentenças e limitações
estéticas ou morais, mas que, logo em seguida são violadas. O poeta
“empalidecido pelo medo” não pode tomar a dianteira diante do
abismo. Dante faz questão de manter essa observação inalterada,
quando Virgílio retruca o poeta florentino não se desculpa e nem
sequer se desculpa pela indelicadeza. Ao contrário, sua
originalidade perante Virgílio é que em Dante, tudo parece
extremamente pessoal, e neste caso, uma forma bastante antitética de
se posicionar em relação ao mestre.
Se
a “piedade” fosse o real motivo da palidez de Virgílio, Santo
Agostinho seria seu verdadeiro guia e não o mantuano, que deveria
habitar o círculo dos pederastas, como Farinata, outro de seus
alegados mestres. A angústia em Virgílio é verdadeira, ela está
presente em toda a “Eneida”, está presente nos sofrimentos
infindáveis do herói Enéias, em sua errância em busca do
verdadeiro lar prometido; está presente no sofrimento da amante
desprezada, como é o caso de Dido, a rainha que Enéias levou ao
suicídio, somente os deuses escapam da angústia, esse sentimento
tão ligado à ansiedade e não apenas ao sofrimento.
A
angústia pela falta de relação das experiências do mundo
“aparente” em relação ao mundo “transcendente” é uma das
raízes da cosmologia epicurista e se baseia na ideia central do
atomismo, que é uma maneira muito peculiar de pensar o mundo e de
conhecê-lo. A ética epicurista nos diz que só o conhecimento do
que é justo leva à sabedoria. As almas são algo como “compostos”
ligados ao elemento corporal, porém, é sua precariedade advinda da
natural falta de relação com a verdade plena da eternidade é o que
realmente nos leva a pensar em termos de felicidade ou infelicidade,
de justo ou injusto, pois toda a noção de precariedade está ligada
às conseqüências da vida mundana, elas nos apartam do mundo
verdadeiro. Essa ideia originalmente epicurista está presente em
Dante e se reflete muito no pensamento cristão pós Thomas de Aquino
e Santo Agostinho. Para Jean-François Duvernoy:
O atomismo é um
pensamento-princeps que
inventou tudo, ou quase tudo, a respeito do que se chamou depois de
descontinuidade. Esse pensamento atomístico tem para nós ainda uma
importância fundamental. (...) a sua atitude foi definitivamente
reguladora no que se refere à arquitetônica da razão. Os atomistas
construíram um sistema:
o sistema para o qual
o todo tem uma existência menor do que os elementos que o compõem.
(...) A existência da totalidade não é dada, ela é no mínimo
incerta, e de qualquer forma está por estabelecer. A ligação entre
as coisas vai do elementar ao composto, e não o contrário.
(DUVERNOY, 1993, p. 13-14)
Rumando
na direção contrária àqueles que costumam enxergar na busca pelas
fontes algo de benigno ou força inspiradora para os escritores da
contemporaneidade, Harold Bloom prefere refletir sobre a relação
conflituosa entre o autor efebo e o precursor, ou seja, entre o poeta
da tardividade _ àquele que está prestes a mergulhar no abismo e na
escuridão absoluta _ e o poeta precursor, seu guia natural. Há uma
série de barreiras quase intransponíveis para quem chegou
demasiadamente tarde na história da literatura, uma delas é a
própria aspiração de originalidade, é a primeira barreira e
definitivamente fatal para o poeta que não souber encontrar um modo
de se “esquivar dos ombros largos do pai”, como afirma Freud
(???). A influência, como ameaça ao poeta que chegou tardiamente
torna-se uma releitura defensiva contra o poeta forte, uma ação
defensiva que depende do desvio corretivo da obra anterior, trata-se
de uma relação conflituosa e angustiante.
Seguindo
a ideia de que o “efebo” não pode escapar da relação
conflituosa com a tradição, nos propomos, seguindo a ironia do
Clínamen como a principal razão revisionária em Dante. É o
caminho de desleitura de que Dante inconscientemente promove ao se
aproximar do oposto de Virgílio, Tito Caro Lucrécio. A maneira como
Dante inverte os principais conceitos filosóficos de Virgílio o
aproxima ironicamente de Lucrécio, algo como uma profunda reinvenção
das proposições sobre a verdadeira natureza do artista e da arte no
mundo em sua época. Do ponto de vista figural de Erich Auerbach,
trata-se de pensar Beatriz como figura dele e não da igreja, e
Virgílio como figura da “Divina Comédia”, e não seu guia.
É
preciso pensar de que modo a poesia de Lucrécio se insere nesse
contexto de desleitura. Pode-se observar que se caracteriza
principalmente pelo modo espontâneo _ mas também por um forte tom
de opacidade poética _ com que trata de temas complexos defendidos
por Epícuro, temas como a ascensão, mas principalmente, pelo
destino da humanidade, como afirma Ettore Paratore:
(...) com lo strano contrasto fra
lèntusiasmo per La figura e La dottrina di Epicuro e lèvidente
tetro pessimismo sulla condizione e Il destino dell`uomo, (e questo
contrasto constituisce La nota piu profonda, La nota distintiva di
tutto Il poema), autoriza a scorgere nel suo autore um maníaco, um
temperamento morbosamente malinconico e giustifica La notizia
geronimiana ch`egli compose “per intervalla insaniae.”
[(...) com o estranho contraste
entre a figura e a doutrina de Epícuro é evidente o tom pessimista
como sua condição e destino do homem, ( e esse contraste constitui
a nota mais profunda, a nota distintiva de todo o poema), autoriza a
identificar em seu autor um maníaco, um temperamento morbidamente
esquizofrênico e justifica a noticia geronimiana de que ele compunha
durante os intervalos de insanidade.]
(PARATORE, 1993, p.270)
O
realismo dramático de Lucrécio possivelmente estabeleceu uma noção
conflituosa para a poesia de Virgílio e que, pela via indireta da
desleitura, será cara a Dante, a ideia de que através da ilusão do
amor se revela a impossibilidade de suprimir a “bestialidade”
erótica do ato amoroso. A têmpera erótica é visivelmente filtrada
na
Eneida
de Virgílio, mas em Dante ela retorna, agora envolvida pelo manto da
culpa e da morte, como parece sugerir as várias visões do poeta
florentino descritos na Comédia
e em sua primeira obra, Vida
Nova.
Outro fato atestado por Ettore Paratore e que podemos comparar a
Dante é a força que o tema do amor perdido exerceu sobre ambos os
poetas, Lucrécio cometeu suicídio, mas em Dante o vitalismo
artístico representa uma impressionante evolução em direção à
sublimação do amor e da morte em nome da obra, a morte da amada se
transforma numa forma de transcender a experiência da vida mundana
numa arte digna de reatar o contato do homem com os deuses, que é
mais uma forma de “ler errado” a Eneida,
onde o contato entre deuses e mortais é impossível pela teoria
epicurista que Virgílio professava.
Segundo
Duvernoy:
(...) nossa relação com o
prazer, a morte, a individualidade, a cumplicidade amistosa se
exprime em permanências éticas que dominam com sua imutabilidade
essencial os destinos humanos. Algumas delas, tanto quanto os seus
contrários, estão ainda aqui e ali, tais como em si mesmas. Epicuro
as designou para nós; e o homem a quem ele se dirige, não para
dizer o que é o mundo, mas para dizer-nos como viver e morrer nele,
esse homem é realmente cada um de nós, e é também efetivamente,
alguns de nós.” (DUVERNOY, 1993, p.15)
Epícuro
condenava a ideia de que a poesia poderia ser fruto de paixões e
superstições, mas Lucrécio, bastante ligado à cultura grega, _
fato que o distinguia de outros poetas romanos de sua época e
principalmente de Virgílio _ havia dotado a maioria de suas obras
com temas análogos aos fragmentos de poemas dos filósofos
pré-socráticos. Se Dante não conhecia bem o Virgílio histórico,
também é fato que Virgílio tinha pouca noção da dimensão do
pensamento filosófico de Lucrécio e Epícuro, estes seguramente
menos influenciados pelos textos socráticos escritos por Platão e
que não condenava apenas os pré-socráticos, mas principalmente
Homero:
O Virgílio da Divina Comédia é,
necessariamente, um personagem literário, tanto quanto Dante, o
Peregrino. Dante é tão convicente em termos de autoridade poética
que o leitor pode levar um certo tempo até perceber que, apesar dos
nomes históricos, todas as figuras da Comédia são personagens
literários. O poeta latino Estácio jamais se converteu ao
cristianismo, mas Dante precisava dele, em uma cena crucial e
comovente, um encontro com Virgílio no Purgatório, e, assim, a
reles verdade histórica foi alterada. Virgílio foi, em vários
aspectos, discípulo do grande poeta epicurista Lucrécio,
evidentemente, desconhecido de Dante e cuja obra teria estarrecido o
mestre toscano. (Op. Cit, p 104)
O
que liga Dante indiretamente à poesia epicurista é sua necessidade
estética de se desviar antiteticamente de Virgílio, que
provavelmente, como acreditamos, “leu errado” no sentido que
Harold Bloom dá ao termo, Virgílio via Lucrécio. Na poesia de
Dante é Lucrecio e não Virgílio que ecoa como experiência
filosófica através do tema do erotismo, do amor e da morte,
temáticas imperiosas e irresistíveis para ambos, como o caso de
amor proibido de Paolo e Francesca, mas certamente não para
Virgílio, eis um trecho do canto V:
Se por saber da primeira raiz
do nosso amor tu tanto assim
porfias,
serei como quem chora ante o que
diz.
Por passatempo líamos um dia
de Lancelote e o amor em que ele
ardeu:
éramos sós, maldade não havia.
Nosso olhar muitas vezes ascendeu
às alvas faces, livro
abandonado,
mas um momento, este só, nos
venceu:
quando lemos que o riso desejado
fora beijado por aquele amante,
este aqui, que há de estar
sempre ao meu lado,
a boca me beijou, febricitante.
Galeotto há no livro e em quem
narrava:
nada mais lemos, nesse dia,
adiante”.
(DANTE,
2011, p.100)
Segundo
Harold Bloom ao ascetismo de Virgílio:
Todos nós, em Virgílio,
estendemos os braços ao litoral longíquo, deixando para trás os
prazeres naturais e as dores eróticas, enquanto somos transportados
ao sombrio além. Para Virgílio, não existe vitória na vitória, e
seus deuses são tão pobres de espírito quanto poderosos no domínio
que exercem sobre nós. No entanto, a eloquência de Virgílio é
extraordinária: a litania da perda jamais voltaria a ter o mesmo
primor.(Idem)
Outra
semelhança entre os dois poetas é o fato de que ambos dedicaram à
parte final de suas obras máximas ao tema da existência divina e
das condições de vida após a morte. Para que se tenha ideia da
importância do tema, veja-se, por exemplo, o índice temático de
Lucrécio no livro V de Rerum
Naturae:
primeiro capítulo, o conceito do atomismo de Epícuro é a questão
filosófica central; segundo capítulo, o nascimento e a degradação
do mundo; terceiro, o tema da imortalidade da alma; quinto, a
história do cosmo e da imortalidade; sexto, a origem do mundo em que
vivemos e a história da humanidade, afastando a ilusória ideia do
progresso contínuo. São problemas que Lucrécio discute e que
certamente estão ligadas de modo enviesado às crenças e valores
políticos, éticos e morais que Dante também defendeu em sua
comédia, guardadas as devidas proporções em relação ao tempo e
às crenças de cada um.
Em nenhum momento encontra-se a
afrimação de que os deuses sejam eternos. Eles são
in-corruptíveis, aphthartoi,
palavra de caráter negativo, declinada a partir do verbo phtheiro,
que significa apodrecer, corromper, alterar. (...) Conclui-se que
eles são incorruptíveis, indestrutíveis, pois a destruiçõ sempre
vem de uma agressão exterior: a corrupção decompõe o composto de
modo exógeno. Os deuses, lá onde estão, não estão em contato com
coisa alguma.
(DUVERNOY, 1993,
p.57)
O
conhecimento epicurista de Lucrécio foi importante para Virgílio,
mas seria ainda mais relevante para Dante, pois Lucrécio dividiu o
conhecimento epicurista em três partes, tais como Dante divide o
inferno, o purgatório e o paraíso, mas ambos convergem para a ideia
de que essa divisão só se sustenta se expostas em duas vertentes:
uma física das coisas e uma sabedoria distinta do mundo físico,
superior e intocável.
Conclusão
Como
Auerbach havia notado o conceito de figura
para
Lucrécio assume um tom original em seu modo de transformar o
material do mundo material em “figura de sonhos”, como neste
exemplo que soa de maneira surpreendente em relação figural com a
“A Divina Comédia”:
Quando a razão, surgida da mente
divina, eleva a voz a fim de proclamara natureza do universo, os
pavores da mente são afugentados, os baluartes do mundo se abrem, e
posso contemplar a marcha dos eventos através do espaço. São
reveladas a majestade dos deuses e o plácido local onde residem,
jamais sacudido por tempestades, nem encharcado por nuvens carregadas
de chuva, nem desfigurado por nevascas congeladas. Um céu de éter
sem nuvens os encima, e sorri, com um brilho pródigo e grandioso.
Tudo o que necessitam lhes é suprido pela natureza, e nada, jamais,
corrompe-lhes a paz de espírito. Não vejo, em parte alguma, as
ante-salas do Inferno, embora a Terra não me impeça de contemplar
tudo o que se passa nos espaços inferiores. Diante disso, sou tomado
por um deleite divino e um tremor reverente, pois, pela vossa força,
a natureza se descobre e se manifesta em toda parte.
(LUCRÉCIO, 2011, p, 50)
O
conceito de Erich Auerbach sobre figura,
anteriormente descrito, é um modo radicalmente diferente de
pensarmos a maneira como Dante se utiliza da figura de sua amada
Beatriz. Como figura, Beatriz se torna figura reveladora e profética
de acordo com as dimensões apocalípticas e escatológicas herdadas
a partir desse conceito de figura. Auerbach sustenta que em “A
Divina Comédia”, Beatriz é uma figura alegórica que depois se
transforma em “revelação encarnada”, uma figura que só
encontra salvação por Dante.
A
autoconfiança cosmológica de Lucrécio leva-nos a deixar de lado o
medo da morte, e considerá-la irrelevante. Lucrécio enfrenta, com
serenidade, o mundo violento com o qual o seu poema não foi capaz de
ensinar Virgílio a lidar com a sublimação, esse elemento estético
tão caro a Dante e que possibilitou a ele (serenamente) seguir com a
dor da morte da amada Beatriz pelo resto de sua vida.
O
cosmo de Virgílio é comandado por um Júpiter surpreendente, nem
homérico nem lucreciano. Em Homero, os deuses constituem nossa
audiência; em Lucrécio, nada tem a ver conosco. Em Virgílio,
Júpiter decide os nossos destinos: sua vontade faz as nossas
guerras, estabelece o perene domínio romano, o abandono de Dido por
Enéas. O destino _ ou vontade de Júpiter_ é masculino, e não pode
ser distinguido da força, do poder. Juno _ irmã e esposa de Júpiter
_ é imagem digna de um pesadelo, e pode ser considerada a musa da
Eneida, pois a ira e o ressentimento da deusa empurram o poema como
marcha fúnebre, um progresso rumo à destruição fulgurante.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
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